[TV] CSI: Blood Moon

CSI entra no Mundo das Sombras quando o exagero rompe barreiras e nem mesmo a eternidade é capaz de esconder a verdadeira essência humana.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

[Importante! A cobertura de TV do SOS Hollywood contém spoilers, portanto, sugiro a leitura após acompanhar os episódios identificados no título]

Nova Iorque pode ser a cidade que nunca dorme, mas Las Vegas é a cidade que nunca deixa de surpreender, seja por seus grandiosos shows ou por suas experiências bizarras. CSI sabe aproveitar dessa mescla de tribos, eventos, conceitos e pessoas para criar seus episódios. O formato já é repetitivo e como todo mundo copia o chamado “procedural drama”, ou seja, o drama sobre procedimentos policiais, acabei me afastando do programa, mas tudo faz sentido nesse mundo. Coincidências não existem, pode apostar. Bem, no episódio mais recente, Blood Moon, finalmente pude ver Laurence Fishburne, ou melhor, Langson, substituindo o Grisson tudo por conta dos anúncios: vampiros e lobisomens estariam envolvidos! Não podia perder por nada!

Imediatamente lembrei do episódio Furry, da quarta temporada, quando a equipe do CSI investigou um assassinato bizarro envolvendo um sujeito vestido de cachorro. Com isso, infelizmente, fui apresentado ao universo das pessoas que incorporam animais para suprir suas carências afetivas e até mesmo sexuais. Foi bizarro. Mas é Las Vegas e o que acontece em Vegas, fica em Vegas. A não ser que alguém morra no processo e foi isso que aconteceu com os vampiros e lobisomens que se encontraram numa gigantesca convenção, ou melhor, um duelo de estilos de vida. Alguns se comportando e realmente acreditando ser vampiro, ou melhor, aristocratas chatos e pedantes; outros deixando o lado animal tomar conta e se comportando da maneira mais imprópria possível – com ou sem cerveja – para representar o jeito lobisomem de ser. É aquela história que todo mundo conhece, independente do nível de exagero. Trekkies x Jedi, Nintendo x Sony, Time A x Time X, Religião Y x Religião U.

Somos uma raça boa em brincar com extremos, especialmente quando essa brincadeira permite a remodelação do mundo. É a mesma dinâmica dos cultos radicais, que se aproveitam de pessoas frustradas e tristes para incutir sua mensagem. A ligação pode parecer forçada, mas a verdadeira linha que separa o “ser fã” do “ser maluco que se mata para pegar a calda do cometa” é bem frágil, afinal, quando se decide abraçar 100% os preceitos do vampirismo ou do lobismo (hehe) – seja ele energético, físico ou místico – uma carga indesejada de sensação de poder inexistente vem junto, mas não a habilidade de se transformar ou iludir seus inimigos e as autoridades. A natureza humana se revela mais brutal e assustadora quando se veste uma máscara capaz de alienar o indivíduo de vínculos sociais habituais.

Foi o que aconteceu quando a polícia encontrou um corpo decapitado por 18 golpes de machadinha. Machete pode ser descartado imediatamente como suspeito, afinal, o mexicano osso duro de roar precisa de uma só para terminar o serviço. E o detalhe mais inusitado: ele era um vampiro! CSI mergulha na mitologia dos conflitos entre vampiros e lobisomens para tentar descobrir as razões do assassinato, mas aproveitam para tirar uma casquinha dos personagens que povoam o circuito das convenções; seja ele o dono da loja de armas ou os membros dos clãs, completamente imersos em suas identidades sobrenaturais. Fishburne resolve derrubar a cortina do faz de conta quando confronta os “vampiros”, na melhor cena do episódio. Tamanha era a convicção daquelas pessoas, que a luz do Sol realmente as incomodava, inicialmente, mas, aos poucos, as palavras do investigador e a percepção de que a encenação tinha limites – afinal alguém tinha morrido – provocou mudanças imediatas nos pseudo-chupadores de sangue.

Mudança é algo sempre almejado nesse tipo de dinâmica. Seja pela pessoa que opta por viver outra vida, seja pelo cético que quer reaproximá-las da realidade. E o escapismo também é habitual, afinal, entre ser um lorde vampírico cheio de seguidores ou um mecânico de xerox a escolha parece óbvia, não? Essa é a base da estrutura social virtual em muitos casos, mas teve sua gênese no fandom de ficção científica e seriados. Supernatural brincou com isso, em The Real Ghostbusters, quando deu a medida exata dessa fuga. Trekkies, filme de Denise Crosby, mergulha no social e se posiciona como observador, nada mais. E a realidade é feia. Entretanto, é essa mesma realidade que nos impede de fazer idiotices, pois uma coisa nunca muda: a emoção.

O ser humano é extremamente emocional e, devidamente instigado, vai agir de forma instintiva para dar vazão a sua emoção. Os vampiros podem ser contidos e reclusos por trás de suas capas e olhares blasé, e os lobisomens podem alegar expor sua verdadeira índole ao ignorar as regras, mas no fundo de cada um deles, sempre existe aquilo que renegam. O ser humano. Uma pessoa assustada, infeliz e descontente. As razões não importam. Mas todos têm limites e quando fantasia e realidade se misturam, o próximo passo pode ser o último.

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Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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One thought on “[TV] CSI: Blood Moon

  1. Bah, fiquei com bastante vontade de catar esse episodio do CSI pra ver. Gostei mesmo do que tu escreveste e do que o capitulo fala. Uma vez, acho que no Las Vegas, vi um episodio que falava de umas gurias que realmente acreditavam serem vampiros. A guria que morreu, morreu por ter sido mordida pelo amado dela, sendo que este, o cara, acreditava que, na verdade, havia libertado-a. Bem doido tambem.
    Valeu por essa, Barretão! E volte assim que der com o SOS-Cast e dê mais passeadas pelo RapaduraCast. Adoro te ouvir lá.

    Abraços e até mais!

    Flávia Santos, 17 anos
    Porto Alegre – RS

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