Operação Valquíria: Redenção Multitarefa

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Novo filme de Tom Cruise retrata Alemanha contrária a Hitler para redimir uma nação e, de quebra, uma carreira manchada pela cientologia.

Mais de 60 anos recheados de histórias sobre as atrocidades nazistas, imagens reforçando o fanatismo da Alemanha comandada pelo partido Nazista e a aterradora imagem de Adolph Hitler foram mais que suficientes para convencer boa da população mundial de que os alemães eram a pior raça da Humanidade na primeira metade do século passado. O cinema não fez muito para desfazer esse mito, pelo menos, até a estréia de Operação Valquíria (Valkyrie, 2008), que reconta a última tentativa de assassinato ao Füher do Terceiro Reich. Tom Cruise apostou alto e ganhou numa trama ininterrupta, tensa e eletrizante, mesmo com o final conhecido e previsível.

Bryan Singer tem conseguido alguns milagres na última década. Ele foi um dos maiores responsáveis por, finalmente, mostrar a real versão cinematográfica dos super-heróis com seu X-Men – O Filme e abriu terreno para tantas adaptações – que devem atingir seu ápice com a chegada de Watchmen aos cinemas, em março – e ainda conseguiu ressuscitar o Super-Homem em filme que dividiu opiniões. Agora, porém, o cineasta e produtor recebeu o maior de seus desafios: redimir uma nação e um astro desacreditado. E, acredite ou não, recuperar a imagem da Alemanha nazista é muito mais fácil do que superar os rompantes de loucura de Tom Cruise. Felizmente, Singer foi bem-sucedido em ambos os aspectos por dirigir um filme de roteiro complexo, mas orientação simples: recriem o atentado de 1944 e o subseqüente golpe de estado que livraria a Alemanha do comando nazista.

O elenco ajudou nessa tarefa, pois nomes irrepreensíveis como Bill Nighy, Terence Stamp, Kenneth Branagh, Tom Wilkinson, Kevin McNally, Eddie Izzard e Thomas Krestchmann estavam à disposição do diretor, além, é claro, do próprio Cruise que assumiu a responsabilidade do projeto e reviveu o coronel Claus Von Stauffenberg, o homem que quase matou Hitler. Cruise convence e merece o reconhecimento, fato. Mas estava tão cercado por boas condições para garantir uma interpretação impactante e longe da canastrice esperada de seu “alemão”.

Operação Valquíria é uma história sobre lealdade e a verdadeira luta pelo bem maior. Hitler foi alvo de inúmeras tentativas de assassinato desde seu malfadado golpe de estado em 1923. Em princípio, seus “Camisas Marrons” o protegiam e, no momento em que o filme se passa, é a elite da SS quem cumpre o papel de segurança do Füher, tornando o acesso ao ditador praticamente impossível para inimigos externos. O único modo de tirá-lo do poder seria por um complô interno, que aconteceu quando o restante da liderança política alemã e uma ala descontente do alto comando decidem agir para evitar a matança que assolava a Alemanha conforme os aliados avançavam.

Entretanto, matar Hitler não seria a única tarefa, pois homens como Himmler, Goebbels ou Hermann Goering prontamente assumiriam o comando com a ajuda da SS e, claro, com o exército. Sabiamente, o filme começa com o momento crucial da ascensão de Hitler ao poder: quando ele faz com que a Werchmarch jure lealdade incondicional ao Füher, ou seja, impedindo que qualquer unidade do exército se rebele contra o ditador. E é justamente nesse detalhe que toda a trama de Operação Valquíria se desenrola e garante a atenção, pois há todo um jogo de poder, interesses obscuros e, claro, medo em caso de fiasco que moveu os homens envolvidos no complô. A recriação de época não deixa a desejar e tudo ali se encaixa perfeitamente.

Cruise aproveitou a chance para apresentar um Stauffenberg obstinado, mas, ao mesmo tempo, apaixonado pela família. Ele não era um maníaco por poder ou assassino sanguinário, pelo contrário, foi seu constante contato com a morte de seus soldados, integrantes do Afrika Corps, que o moveu a tentar impedir mais mortes desnecessárias. Naquele momento, o cenário estratégico estava perdido e todos sabiam, provavelmente até o próprio Hitler – embora não admitisse – que a derrota era questão de tempo.

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O tempo requeria urgência, os riscos são grandes e qualquer erro resultaria em tragédia. Os elementos criados por Bryan Singer conseguiram cumprir as necessidades, o elenco ajudou e a trilha sonora de John Ottman (Superman Returns) garante a boa tensão, se bem que ver uma sala repleta de oficiais da SS e o próprio Hitler já contenha mais tensão que qualquer filme jamais conseguirá recriar. É imperdível por diversos fatores: ver Tom Cruise em boa forma, encarar um momento histórico marcante e entender um pouco mais sobre os dilemas do povo alemão perto do final da Segunda Guerra Mundial.

Curioso notar que Operação Valquíria segue a versão oficial dos fatos e, por exemplo, deixa de lado o possível envolvimento do Marechal de Campo Rommel no complô, sem dúvida, um dos pontos mais polêmicos envolvendo esse acontecimento. Rommel foi acusado de alta traição pouco depois do atentado – ele já estava descontente depois de ter descoberto a existência dos campos de extermínio e outras atrocidades cometidas pelos nazistas – e, por conta de seus imensos serviços prestados, teve a opção de cometer suicídio para poupar sua família e gabinete. Aliás, esse era o parâmetro de misericórdia praticado por Hitler num momento que nem mesmo seus mais fiéis seguidores acreditavam piamente em seu julgamento.

Em caso de êxito, a Operação Valquíria teria poupado a vida de milhões de pessoas que morreram ao longo dos nove meses que se seguiram até a invasão aliada a Berlin, o suicídio de Adolf Hitler e o fim da guerra na Europa. Tudo por culpa dos detalhes, ínfimas escolhas capazes de alterar o rumo da história eternamente e condenar uma nação à constante sombra de seu passado atroz. Sorte de Tom Cruise, que aproveito tudo isso para se levantar e mostrar que ainda sabe como ser um grande astro.

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Fábio M. Barreto

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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25 thoughts on “Operação Valquíria: Redenção Multitarefa

  1. Otimo texto como sempre Barretão!

    já estava querendo assistir esse filme antes pela historia e depois de ler aqui tudo isso fiquei com mais vontade ainda!

    Esse fim de semana é Coraline e Operação Valquíria na cabeça! ^^

  2. Eu não ia assistir, de verdade, não estava empolgada. Mas agora vou conferir sim, fiquei interessada apesar deste período histórico não ser um dos meus preferidos.
    Parabéns pela matéria, ficou excelente.
    Beijo

  3. Parabéns pelo ótimo texto, que serviu para atiçar a curiosidade de seus leitores.
    Já assisti um filme sobre esse mesmo tema, estrelado por SEBASTIAN KOCH, mas nem por isso deixarei de conferir OPERAÇÃO VALQUIRIA nas telonas (se possível, ainda nesse final de semana).
    Saudações,

  4. Sempre um bom trabalho, cara. Parabéns! Quanto ao Tom Cruise, o cara é foda. Não dá pra negar, quem já assistiu a “nascido em 4 de julho”, “Magnolia”, “Vanilla Sky” e até mesmo “Jerry Maguire”, entre tantos outros, não tem porque questionar a competência e o talento do sujeito. Mesmo com ele comendo placenta ou pulando no sofá da Oprah.

  5. Show de bola, ótima resenha… já esperava algo bom de um filme vindo de Synger, Cruise e tantos outros talentos, mas lendo essa matéria minha curiosidade aumentou… parabéns ao Barreto…

    Tom Cruise sempre foi um ótimo ator, e sua vida pessoal não tem nada a ver com talento, algo que sempre mostrou nas telas…

  6. Olha, Nascido em 4 de Julho é.. é.. uma merda sem tamanho. Assisti outro dia, parece que todo mundo resolveu passar Tom Cruise na TV, mês passado. Revi Top Gun, Nascido em 4 de Julho, Magnólia e Jerry Maguire. Perto dos outros filmes “grandes” sobre Vietnã, o do Cruise é uma besteira sem tamanho. É MUITO RUIM! E ele completa a ruindade.

    Agora, O ‘Ultimo Samurai é um primor, ele mandou bem e o Watanabe roubou a cena. Mais que recomendado!

  7. Ai eu discordo de vc Barreto, nascido em 4 de julho é um ótimo filme de drama, guerra nele é só um mote dentro dele e não o assunto principal (que é o tratamento dispensado aos veteranos e os sonhos perdidos após uma deficiencia) é até maldade comparar ele com apocalypse now, platoon ou nascido para matar.
    Os temas são completamente diferentes dos outros filme sobre Vietnã, alem de nele atuação do Tom tá muito boa…

    bom mas isso é questão de opinião e eu só quis expressar a minha.
    Alias o texto tá foda, mas um pra entrar na listinha de filmes pro fim de semana.

  8. cara, Magnólia é um ótimo filme, mas as partes que aparecem o Tom Cruise são horríveis, simplesmente me incomodam…a atuação dele é tão forçada que chega a dar nojo. Do tipo: “eu sou um bom ator, me vejam! ME VEJAM!”. Na minha opinião, o Tom Cruise não é dos piores, principalmente quando ele está mais centrado, mas parece que ele quer provar pro mundo que é um puta ator, só que quanto mais ele quer provar, mais forçada fica sua atuação. Ele devia relaxar um pouco.

  9. Ops, esqueci de escrever mais algumas coisas, peraí.
    Quando ele fez o vampiro Lestat em Entrevista com Vampiro, ele definitivamente roubou a cena. Pra mim, que conheço um pouco da mitologia da Anne Rice (apesar de não ser um fã), Tom Cruise é o Lestat definitivo, o cara simplesmente deu um show.

  10. concordo plenamente com seus comentários!
    o filme é muito bom.

    o q me incomodou bastante foi a implicância de boa parte da imprensa – aqui no canadá todo mundo caiu matando na questão do sotaque. não conseguiram achar mais nada ruim no filme pra falar mal, daí resolveram reclamar da falta do sotaque alemão. pq ia fazer muito sentido um bando de soldados alemães falando inglês com sotaque…

    não acho q esse seja um detalhe q atrapahe o filme; muito pelo contrário, um sotaque mal feito (pq convenhamos, cruise não manda muito bem com sotaques) afunda até a melhor das histórias.

    q vc acha disso, barretão?
    pq acho q na imprensa americana rolou essa implicância tb, não?

  11. Eu já tava empolgado pra ver, agora que li a sua resenha, irei imediatamente comprar meu ingresso.
    A segunda guerra me fascina. Qualquer filme que retrate esse período da história, se for bem dirigido, é quase certeza de sucesso.

  12. Cruise tem excelentes filmes, o meu preferido é nascido em 4 de julho. Antes de mais nada, o filme é baseado numa biografia. O Vietnã serve apenas de pano de fundo, para falar sobre até onde o patriotismo manipula corações e mentes na América. Jovens que se alistam pensando em dar suas vidas para uma nação. E que nação? Aquela que está se lixando para esses jovens. O belo desse filme é exatamente mostrar a transição do orgulho, para a decepção e a revolta.
    Quanto ao filme Operação Valquíria, já li algumas críticas até certo ponto engraçadas. Parece que determinados críticos tem vergonha de elogiar um filme do Tom Cruise, ficam meio sem graça, arrumam algum pretexto para se justificarem. Sabe aquela coisa do tipo ” ele é só um galã, não pega bem eu falar bem”. Da mesma forma que ficam meio sem graças, de detonar um filme ruim de um grande ator a la Sean Penn.
    Coisas de crícriticos!!!

  13. Podem até me questionar, mas, quando Tom Cruise interpretou de forma questionável desde que se tornou um astro do cinema?

    MI (2 e 3), Minority Report, O Ultimo Samurai, Colateral, todos os filmes foram excelentes e em nenhum você pode dizer “Estragou o filme”…

    Acho que esse negócio todo de pegar o Tom Cruise e por rótulo de “maluco” é exagero, coisa de imprensa, estilo Estadosuniense e Ingles, pra ser honesto… Até em Leoes e Cordeiros, filme que apesar de ter Maryl Streep, Robert Redford e Tom Cruise, não fez sucesso nenhum, ele estava perfeito no papel de um senador americano…

    Pra mim, o cara sempre fez filmes bons. No ínicio da carreira pode até ter feito umas khdas, mas no resumo da ópera, não tem como questionar a qualidade dele e dos filmes…

    Pra mim, o que mudou foi a ligação público-ator, que, em atores como Will Smith, está firme e forte, no caso do TC estava extremamente abalada pelas decisões que ele tomou na vida pessoal e que não deviam ter relação com a vida profissional, mas sempre acaba tendo…

    O cara é foda, fez excelentes filmes, fez umas cagadas, mas não é por isso que ficou maluco

    =D

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