Crítica: Lunar (Moon)

moon_image

Lunar (Moon) é simplesmente brilhante. Parece que a Ficção Científica foi acordada do sono profundo e saiu de seu devaneio assombrado por blockbusters explosivos. É hora de pensar, questionar e evoluir, especialmente quando Sam Rockwell dá um show de interpretação como esse.

Ao longo da história do cinema, poucos atores foram capazes de entreter as platéias sozinhos. Tom Hanks e Will Smith são alguns exemplos recentes, mas Sam Rockwell entrou rapidamente para esse grupo ao dar um espetáculo em Moon, ficção científica comportamental do melhor calibre dirigida por Duncan Jones, filho de David Bowie. A ligação não poderia ser mais bem vinda e Moon surge como o “homem das estrelas/que gostaria de nos encontrar/mas acha que vai sobrecarregar nossas mentes”.

No ano dominado por Distrito 9, a ficção científica encontra em Moon seu melhor representante. A ausência de cenas de ação, armas mirabolantes ou mesmo demandas apocalípticas podem ter retirado as pretensões comerciais e com isso diminui as chances de um lançamento nos cinemas brasileiros, mas é justamente isso que transforma esse drama em algo memorável.

O roteiro, também assinado por Duncan Jones, presa pelo debate aberto e intenso da natureza humana. Para canalizar essa discussão, ele nos apresenta ao já icônico Sam Bell (Sam Rockwell, de O Guia do Mochileiro das Galáxias), único morador da estação de captação de energia na Lua, instalada após a descoberta de uma nova fonte, extraída do solo lunar. Sam é seu único tripulante. Tem por companheiro a voz serena de GERTY, uma inteligência artificial dublada por Kevin Spacey.

Eles têm uma relação curiosa. GERTY devota sua existência a salvaguardar a vida de Sam, cujo contrato de três anos está prestes a terminar. Ele poderá voltar para casa. E para sua esposa e filha. Mas um acidente muda tudo. É o nascimento do Homem da Lua, uma espécie de filho das estrelas, cuja consciência – por mero acaso ou obra do destino – se distancia de seus anos anteriores.

Mergulhar nesse modo de pensar e agir, assim como na nova natureza de seu relacionamento com GERTY se torna tarefa viciante durante a projeção, e, claro, um passeio de referências pelo gênero. Óbvias, porém não indispensáveis, citações a 2001 – Uma Odisséia no Espaço, Alien – O Oitavo Passageiro, Blade Runner, Solaris (ambas as versões), Guerra nas Estrelas, ao recente Sunshine – Alerta Solar e, claro, às canções Space Oddity e Starman, de David Bowie. Mas nada disso o transforma numa cópia ou mera colcha de retalhos.

A identidade de Moon é latente especialmente por sua narrativa direta, auto-consciente e sem a necessidade de grandes reviravoltas. Segredos e surpresas existem, entretanto, é nas reações de Sam Bell que reside a força desse longa-metragem.

Homem de família; astronauta esgotado pelo isolamento; sujeito simples e sem super-habilidades. Isolado por conta de um problema no sinal do satélite, que só permite o envio e recebimento de mensagens gravadas, aos poucos, Sam descobre sua verdadeira natureza, confronta seus erros de modo inusitado e atinge um nível elevado de conhecimento. Nada de nirvana ou ascensão dimensional, mas sim o simples reconhecimento de sua função. Sua razão de ser. Ele não descobre o “Sentido da Vida” dos Python, mas encontra sua própria verdade. E não há conhecimento mais poderoso que a verdade.

Essa situação torna a vida de Moon muito mais fácil em termos narrativos, justamente por não precisar de grandes estratagemas para se resolver. Um indivíduo pode ter tantos conflitos quanto toda a Humanidade, mas, de forma isolada, suas chances de evolução/compreensão se ampliam.

Pura questão de foco. E isso não falta, seja na trajetória de Sam quanto no desenrolar de sua relação com GERTY – que não toma o lugar de Hal 9000, mas chega imediatamente ao topo das inteligências artificiais mais relevantes da história do gênero. Ele se comunica por meio dos “smiles” da internet. Genial!

Tudo isso para uma conclusão bombástica. De certo modo, trata-se do mesmo Sam, mas sua mente se distanciou das demais. É sua hora de se revelar e sobrecarregar nossas mentes. Chega de esperar entre as estrelas. É brilhantismo puro.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Lunar será lançado direto para DVD no Brasil, em 6 de janeiro, pela Sony.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

    Saiba mais sobre mim:
  • facebook
  • googleplus
  • linkedin
  • twitter
  • youtube

13 thoughts on “Crítica: Lunar (Moon)

  1. Poxa, que filme fantástico, pena que não vai passar no cinema.
    Quem sabe aqui na cidade onde eu moro ( São Bernardo do Campo ) , que sempre tem uns festivais que aceitam sugestões da população, a gente possa ver na telona.

    Me emocionei muito. Pra quem vive, ou já viveu algum tempo sozinho, esse filme toca na alma de uma maneira muito intensa, e não posso negar que chorei.

    E aquele robô! pqp!!! As carinhas dele!!

    E o final… Cara, essas empresas ….melhor eu nem falar mais.

    🙂

  2. E aí Barreto, ouvi falar desse filme na época do seu lançamento lá fora e fiquei bem intrigado. Como não falaram mais nada acabei esquecendo do filme, e só fui lembrar dele uns dias atrás quando me deparei com o título em um desses sites que falam sobre lançamentos em DVD. Tava doido atrás de alguma resenha e agora encontro a sua. Parece que é uma ficção muito boa, e como eu gosto de ficções desse porte! A propósito Barreto, parece que Morgan Freeman e David Fincher estão com um projeto parado a um tempão chamado ENCONTRO COM RAMA, baseado no livro Arthur C. Clarke, é pura ficção! Você sabe alguma coisa a respeito? Abraço.

  3. O filme é ótimo. Eles cortaram as armas e ação intensa e provaram que é possível sim fazer um bom filme sem usar esse tipo de recurso.
    O começo é um pouco mais entediante, até mesmo confuso, mas ao longo do filme ele vai se tornando intrigante e inteligente.
    Vale a pena assistir. Pena que não passou nos cinemas :S

  4. Espero que não seja tarde para colocar comentários aqui mas … eu assisti o filme agora pouco e gostei.
    Só ficou sem sentido aquela cena da mulher sentada lá, e da visão de uma pessoa (provavelmente mulher) perto da colheitadeira lá minutos antes dele bater o veículo lá.

  5. Pingback: Blog do Jotacê

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *