Coração de Tinta: O Verdadeiro Poder da Palavra

Coração de Tinta é boa surpresa no gênero fantástico com roteiro, direção e elenco de primeira linha. De quebra, tem Andy Serkis mostrando do que é capaz sem animação computadorizada ou efeitos exagerados.

LONDRES – Enquanto as adaptações de livros de fantasia desaceleram em Hollywood, obras relevantes ganham o espaço e qualidade que merecem nos cinemas. Uma delas é Coração de Tinta, versão cinematográfica do livro de Cornelia Funke, uma história envolvente e surpreendente que tem de tudo para conquistar bom desempenho nas bilheterias: astros famosos, boa história e as férias escolares! Brendan Fraser é Mo, um sujeito capaz de trazer qualquer personagem ou item literário para a vida caso leia em voz alta. Ao mesmo tempo um dom e uma maldição, especialmente para quem adora ler.

Quando a escritora alemã Cornelia Funke escreveu Coração de Tinta, ela imaginou seu personagem principal – Mortimer, ou Mo – com as feições do astro Brendan Fraser. Desde seu jeito de falar até os traços físicos. Foi uma bela homenagem à época e que chegou ao conhecimento do galã com uma cópia autografada e com dedicatória do livro. Nascia aí uma amizade entre criadora e criatura. Quando o filme entrou em produção, Fraser embarcou imediatamente. Também pudera, ficar de fora de Coração de Tinta seria tolice, seja pela fama do livro, pelo grande diretor envolvido, Iain Softley, ou pelo restante do elenco que inclui grandes atuações de Helen Mirren, Paul Bettany e Jim Broadbent.

Tudo isso resultou na história de Mortimer, um sujeito capaz de trazer seres literários à vida. Entretanto, cada vez que ele usa seu dom, alguém do nosso mundo vai parar nas páginas dos livros. Infelizmente, numa dessas ocasiões, Mortimer manda sua esposa para o outro mundo, mas não antes de trazer o vilão Capricórnio (Andy Serkis) e o engolidor de fogo Dustfinger (Paul Bettany) para nosso mundo. A partir daí, ele tenta reencontrar a esposa (Jennifer Connelly, com quem é casado na realidade), mas precisa fugir de Capricórnio e seu desejo de dominar nosso mundo. Parece doido, mas é fantástico do aspecto estrutural dentro do gênero. O mais engraçado são as referências a Tolkien e outros clássicos literários.

A história é intelectualmente mágica do começo ao fim. Sem exageros. Mesmo sendo um filme de fantasia, tudo é muito embasado na nossa realidade e, embora os personagens sejam fictícios, suas habilidades são mundanas. É um embate entre o Bem e o Mal da maneira mais clara possível, pois são as ações de cada personagem que os definem e não poderes sobrenaturais.

Em essência, Coração de Tinta é uma história sobre autoconhecimento. Cada personagem busca sua verdadeira motivação, mas sempre com muita ação, perseguição e boa dose de adrenalina. Afinal de contas, pode ser um longa-metragem feito para ratos de biblioteca, mas que bom leitor não adora uma boa dose de ação? Curiosamente, os efeitos especiais são poucos e concentram-se nas tomadas finais, quando Capricórnio finalmente invoca a Sombra – sua mais malévola arma de terror.

Ver a história de Cornelia Funke ganhar vida no cinema é uma experiência agradável. Diferente de A Bússola de Ouro, com seu roteiro confuso e excesso de deslumbre visual, Coração de Tinta se beneficia da experiência de Iain Softley (diretor de K-Pax – O Caminho da Luz) e de participações fabulosas de Helen Mirren e Jim Broadbent. É uma mistura acertada e bem-vinda nos dias de hoje, pois mostra que cinema de qualidade ainda pode ser feito na base da boa atuação e de locações de verdade.

Mas Cornelia não está preocupada com isso, afinal, conversou com seu amigo Phillip Pullman, autor de A Bússola de Ouro, e eles chegaram a uma conclusão: “Se o filme for bom, ajuda a vender o livro; se for ruim, sempre vão dizer que é o livro é melhor. Ganhamos nos dois cenários”. E ela está rindo a toa, mas precisa tomar cuidado para não ler em voz alta, afinal, nunca se sabe quando algum visitante pode estar prestes a chegar ao nosso mundo. É a magia de Coração de Tinta, obrigatório para amantes da boa leitura e fãs de Brendan Fraser. Ah, tem Helen Mirren dando uma de Gandalf, só isso já vale o ingresso!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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12 thoughts on “Coração de Tinta: O Verdadeiro Poder da Palavra

  1. O filme tem uma boa história que poderia dar certo, ainda mais pelo elenco que não deixa nada a desejar. Mas o filme não funcionou na maioria das vezes. Um roteiro quase sempre previsível e muito explicativo. O roteiro é tão explicativo que perde toda a graça, pelo menos um suspense de que o protagonista seja a “língua encantada”, o que traz a realidade através da leitura de histórias em voz alta, seria um bom começo para consertar a obvialidade e os momentos insossos nos 105 minutos de filme.

  2. @ Nikolas
    Acho que nunca foi segredo que o Mo era um silvertongue. Aliás, a surpresa está na revelação do “outro”. Olha, nào vi nada de óbvio no roteiro e ser previsível, bem, o fato de ter um final feliz é inevitável, oras. Achei emocionante a cena em que Fenoglio pede para “ir para casa” e toda a construção do Dustinger é fabulosa.
    Você está acostumado demais com twists hollywoodianos. Nem tudo precisa de grande suspense para funcionar bem. 😉
    Respeito a opinião, mas não concordo, assim como você não concordou com a minha. 😀

    abraço!

  3. Infelizmente o filme não conseguiu passar para o público ao meu ponto de vista todo potêncial que poderia, já que possui um bom elenco e uma ótima equipe de efeitos além de ótima direção.
    Achei que pecaram ao escolher Fenoglio (Jim Broadbent) como autor do livro, que poderia ser com um aspecto mais rude, talvez fumante de caximbo e mais sério ao ínves do simpático que deu a ele mesmo o autor que gerou o livro tratado no filme um papel fraco e desinteressante.
    Resumindo, alguns momantos poderiam ser melhores do que foram mostrados dando atenção a um público mais jovem. Talvez assim passasse um pouco mais de ação e se preucupando menos com diálogos pejorativos.

  4. Eu pretendo ler esse livro assim que terminar Lua Nova e Eclipse (sim, entrei na maldita onda de Crepúsculo! xD). O filme foi uma das gratas surpresas de 2009. Gosteu bastante, apesar de que ele, realmente, poderia ter sido melhor! As atuações de Helen Mirren, Andy Serkis, Jim Broadbent, Paul Bettany e Brendan Frasier foram muito boas! E eu concordo com o Baretão: a sinopse do filme já trazia que o Mortimer era um “silvertongue”. A grande surpresa é realmente o outro personagem com esse mesmo dom! o

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