Harrison Ford: a entrevista de uma vida

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Um pouquinho de história barretônica antes de mais nada. No ano de 1999, na primeira Jedicon, eu coloquei uma certa fantasia só para desfilar um pouco. Como organizador nunca para quieto, acabei ficando o resto do dia correndo para lá e para cá vestido de Han Solo. Embora pouca gente se lembre, já que essa nova geração de fãs ainda mijava nas calças em 99, isso aconteceu e muita gente ainda me chama de “presidente Han Solo”. Foi muito legal.

Apertando o botão de avançar no tempo para, exatamente, 25 de fevereiro de 2008. Quatro dias antes, recebo um comunicado me escalando para minha primeira entrevista oficial pela revista. O coração já bateu forte pelo lado profissional, mas quando terminei de ler o email eu quase enfartei. Meu primeiro entrevistado seria ninguém menos que Harrison Ford.

E, para meu desespero, em Santa Monica, que é bem longe de onde eu moro. Dá-lhe Busão! Por sorte, porém, na sexta-feira anterior, quando fui entrevistar o elenco de Agente 86, trombei minha coleguinha Donna, uma australiana MUITO GENTE BOA, que também estava escalada para o Ford e me ofereceu carona. Menos mal, SÓ tive que ir até Beverly Hills – um metrô e um busão e 1h30 de investimento –, mas valeu a pena, pois até Santa Monica seriam quase 3 horas e mais um busão.

A entrevista seria no dia 25, mas, o que tinha na noite anterior? Oscar, claro. Enfiei meu rabicozinho num restaurante, curiosamente, brasileiro, pois vi todo mundo olhando para uma parede. Como parede não pode ser tão legal, saquei que era uma plasma. Dito e feito, entrei, comi polenta – oba! – e tomei algumas taças de vinho. Italiano, tinto. Muito bom. Tudo isso enquanto atualizava o Judão no Oscar 2008. Descobri que meu laptop não tem uma bateria muito boa e na metade do prêmio já estava pedindo água!

Claro que, normalmente, você se prepara, faz pesquisa e organiza as idéias para falar com um top star que nem o Ford, mas, no fundo, eu me preparei para essa conversa nos últimos 20 anos da minha vida. Dá arrepio até de lembrar.

Bão, madruguei no dia seguinte para chegar a Beverly Hills no horário combinado. Metrô e busão depois, cheguei ao apê dos australianos, mas não tinha ninguém. Mas o susto durou pouco e eles só tinham ido tomar café. Carona certa, Santa Monica aqui vou eu. O caminho até lá é legal, uma baita avenidona que não termina nunca! Quer dizer, quase.

Quando eu achava que continuaria muito mais, finalmente, vi o mar da Califórnia. Pois é, praia! O hotel ficava ao lado de Venice Beach, um dos points mais badalados do lugar. Ou seja, levou quase 2 meses para eu ver o mar! Mas foi legal. Rolou uma mini emoção. HAHA.

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O clima já começava quando um pôster de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (esse aí da foto) indicava o caminho para a sala de entrevistas. As meninas supersimpáticas da Paramount já me esperavam, a salinha lotada de comida também, e, claro, a vista para o mar! Encontrei com Isabela Boscov, da Veja. Fiquei muito feliz ao, finalmente, me ver num mesmo evento que ela. Depois de lutar tanto como assessor para mandá-la para alguma das minhas junkets, lá estava eu, “concorrente” dela. Mas a mulher é um doce e extremamente profissional. É ótima para conversar e entende como o mundo funciona, ao contrário de outra pessoinha ridícula e mau-caráter, que apareceu depois.

Aí veio a entrevista. A assessora de imprensa entra acompanhando um sujeito de cabelos bem grisalhos, calça jeans, mãos no bolso, e um blazer cinza. O cara vem chegando e ela pede para que cada um se apresente…. “começando pelo Fábio”. Eu simplesmente congelei! Por uma fração de segundos, claro, até que vi ele esticando a mão. “Prazer, Harrison Ford”. “Fábio Barreto, Brasil”. E seguiu cumprimentando os demais.

A entrevista começou, aos poucos, ele foi tirando o blazer, arregaçou as mangas e enfrentava a bateria de perguntas. A maioria boas, mas, claro, sempre algumas besteiras no caminho. Era engraçado notar como, conforme ele falava, dava para identificar um pouco de cada um dos maiores personagens que marcaram minha vida. Eu juro que, enquanto anotava uma resposta, eu achei que o Han Solo estava ali na sala. Bem, estava, mas vocês entenderam.

Entrevista encerrada, era a vez de conversar com Frank Marshall, o produtor. O cara era todo sorrisos, pois tinha acabado de ganhar uma penca de Oscars por Ultimato Bourne, então foi um passeio falar com ele. A melhor coisa foi descobrir que Foz do Iguaçu está no filme. Deu para ter certeza de que é impossível não gostar do próximo Indiana. Deu até arrepio ouvir ele falando dos primeiros filmes e da retomada do trabalho com o novo.

Nesse meio tempo, rolaram umas conversas e uns papos, e acabei conseguindo uma segunda entrevista com Harrison Ford. Não congelei nem nada, mas ampliei os sentidos. Precisava ser melhor que na primeira e quebrar a banca. Afinal de contas, eu estaria lá uma segunda vez.

Retornei à sala, ele retornou e cumprimentou a todos. Quando chegou a minha vez, enquanto apertava minha mão, parou.

– Ei, você voltou?
– Sim.
– Acho que preciso responder direito para você, então, hein?
– Vamos apenas fazer nosso trabalho. Estou duplamente honrado.
– Não duvido.
Sorriu e sentou-se.

Devo dizer que foi triste ouvir, duas vezes, ele dizer que Han Solo não é interessante, meio bobo e que não voltaria a interpretá-lo. “E aquelas calças, meu deus”.

Embora não tenhamos visto nenhuma prévia do filme e todo mundo tenha feito segredo além do normal sobre o roteiro, foi possível respirar o mundo de Indiana Jones, naquele delicioso hotel beira-mar, em Santa Monica. Conheci um sujeito que, mesmo não gostando, me fez querer aprender a falar inglês, fundar um fã clube e virar jornalista. Tudo para, um dia, entrevistar alguém como ele, já que, ele, parecia sonho bobo. E foi justamente ele que iniciou um novo período profissional na minha vida. Claro que não disse nada disso ao Harrison Ford e fiz apenas meu trabalho, mas, lá no fundo, meu coração batia num ritmo diferente, ritmo de quem sonhou, lutou, sofreu e conseguiu chegar além de seus maiores sonhos.

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(Santa Mônica, sem óculos de sol e tirando foto sozinho, podia ser pior!)

A matéria sair na capa da revista Época foi a cerejinha que faltava nesse bolo mousse extra cremoso. Só tenho a agradecer a todos que participaram da minha vida, que me levou a esse momento extremamente feliz, alegre e completo. Sabe, eu nem lembrei que era fã, ou que sempre tinha sonhado com um dia ficar frente a frente com ele, mas depois, quando a matéria saiu, caiu a ficha. Eu chorei feito criança e quase levitei, pois sabia que era merecido. Independente do que qualquer pessoa diga ou ache.

Resumo da ópera, entrevistei Harrison Ford, fiz direito, como deve ser feito, me orgulho disso e sei que tem alguém, se é que existe outro plano, muito feliz por mim. Mesmo ela não estando mais entre nós, minha avó tem participação vital nessa coisa toda.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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25 thoughts on “Harrison Ford: a entrevista de uma vida

  1. ooi!
    leio o blog sempre, sempre mesmo… mas hoje PRECISEI comentar e dizer que eu quase chorei lendo isso, fiquei muito emocionada… e enquanto você ia escrevendo, fiquei até “ansiosa” por você, imagina!
    parabéns! muito sucessssso!

    🙂

  2. Putz, “arrupiô”!!!
    Me imaginei conversando com o Bono numa mesa de bar, ele fumando a cigarrilha mentolada dele, tomando o vinho tinto que ele tem alergia mas bebe mesmo assim e discutindo sobre se o disco novo do U2 deve ser duplo ou não, sobre as peripécias sociais humanitárias do cara.
    Bem, ele num faz cinema, mas ídolo é ídolo, né?
    Só que eu não sou jornalista, então tenho q ficar famoso se quiser realizar esse sonho.
    Parabéns Barretão! Vibrei!

  3. Parabéns Fábio! Estava esperando esse relato do makin off DA entrevista!! Muito lindo…rs…

    E acho que me lembro daquilo que vc contou no primeiro paragrafo…rs…

    Grande abraço!

  4. Harrison Ford é o cara. Enquanto eu lia seu texto ficava imaginando a cena cara. Deve ter sido bom d+ entrevistar o cara. Se eu fiquei feliz de ver o filme no cinema imagina você que entrevistou ele e toda a turma responsavel pelo filme. Parabens! Continue entrevistando muitos atores e trazendo para gente essas experiencias. E cara, não ligue para esse cara “ridiculo” que você se referiu. Continue fazendo seu bom trabalho ae e deixe os outros fazer o trabalho “vagabundo”deles. O resultado a gente vê ao ler seu texto e o deles. Ate + cara!

  5. Po barreto maior emoçao!Quem sabe um dia eu chego aí!! Muito legal conhecer seus idólos. Eu fui a loucura quando apertei a mão do Leonardo Boff. É eu sei….não é lá essas coisas mas o cara foi responsável pela formação do meu caráter em certa medida. Abraços

  6. Olha eu aqui again, Barretovisky!
    Bicho, puta postagem bacana essa sua, emocionante de verdade! Faço minhas as palavras da Juliana quando ela diz que quase chorou. É a maldição de ler os seus textos, eheheh, a gente entra na onda inevitavelmente. Lembro que foi assim quando li o texto sobre a sua avó.
    Sobre o alvo da matéria e tal, engraçado que o Han Solo nunca fez muito a minha cabeça. Na infância, quando passava Guerra nas Estrelas na Sessão da Tarde (pra mim vai continuar sendo “Guerra nas Estrelas”! Star Wars é modernidade besta) o Luke sempre deu mais barato (até porque meu alter-ego é um tal de Lucas Ed, e muita gente me chamava de Luke Skywalker…). Mas o velho Indy… Na boa? Acho que ele divide a minha infância com o Dr. Emmett Brown. Eram os mais fodas! Quantas vezes o quintal da minha avó (sempre elas, né?) e seus dois milhões de árvores não serviu de floresta perdida pras minhas explorações (tipo o início de Caçadores da Arca Perdia)! Milhões de vezes!
    Por isso ainda não fui ver o filme novo, e estou muito reticente para fazê-lo… Há toda uma magia impossível desse filme novo representar e que eu guardo com muito cuidado no coração… Sabe aquela coisa de jogar folha seca na beirada da laje e esperar que elas caíssem sobre uma ponte invisível? É isso…
    Vamos ver se eu crio coragem…
    Abração Barreto, parabéns mais uma vez e muitas felicidades, bicho, dá gosto de ver tua raleira (e os frutos dela!) aí na terra do homem que manda botá wisky na feijoada!

  7. Caríssimo Fábio:

    Viu! Já fiquei chegadinha. Também, pudera: você está demais aí na cidade do cinema. Voc~e está muitos anos-luz à frente do pessoal daqui do Brasil do Lula.As suas matérias atingem o fundo da alma. Vai que é sua, Barretão!

  8. Oi Gente!
    Agradeço aos comentários!!! Esse dia foi realmente especial e bastante marcante. Quem diria que eu ficaria frente a frente com o For assim tão rápido? E, ao contrário do estilo LA de ser, eu valorizo o contato com esses veteranos. Claro que nao pulo no pesço ou peço autógrafo, mas valorizo demais essas oportinidades. Talvez por isso meu trabalho gere comentários como os de vocês, pois, embora profissional, ainda carrego de emoção o que escrevo, não de pretensão ou egocentrismo.
    Bem, e aí, gostaram do filme?

    Abraços!

  9. Amei seu relato e claro, A-DO-REI o filme!! Todos nós nos empolgamos e as meninas se apaixonaram por Indiana Jones. Você imagina minha alegria ao ver minhas filhas adorando nosso Indy? Se imagina, dobre isso e acrescente a emoção de assistir novamente Indiana Jones na telona…SIM, EU ASSISTI NO CINEMA DESDE O PRIMEIRO!!! Cara, escrevo isso com orgulho porque não tem emoção maior do que ver e ouvir meu herói na telona!! ^_^
    E aqui continuamos torcendo e sentindo saudades. Se cuida querido e continue trabalhando com esta transparência que faz com que os outros se mordam de inveja.
    Beijo

  10. Fabio,

    Confesso que o seu relato me emocionou, principalmente, quem como eu, é da velha guarda, e esteve naquele, já distante, 1999, na primeira Jedicon. Parabéns por mais essa vitória!

  11. Ô Barretão, como é gostoso ouvir relatos como esse.
    Nos colocamos em seu lugar e nos sentimos um pouquinho realizados também
    Parabéns.

  12. po kara, parabens pela conquista

    axo q só o fato d tá tendo a oportunidade d entrevistar um cara como Harrison Ford já é d pirar a cabeça, ai contando ainda q vc é super fã do kara, eu imagino oq vc deve ter sentido ao falar com ele e entrevistá-lo.. =D

    fico feliz qtenha conseguido alcançar esse objetivo, e realmente seus textos são sempre mto profundos, nao dá pra não se sentir emocionado lendo-os, nem q seja um poco só ;p

    continue fazendo esse ótimo trabalho q vc vem fazendo

  13. Parabéns pela realização profissional! Sem querer ser clichê mas já sendo, pra alcançar objetivos que nunca foram alcançados, temos que fazer coisas que nunca foram feitas.

    Garanto que você fez seus esforços descomunais e deu o duro que precisava dar para conquistar essa vitória!

    Parabéns pela simplicidade da matéria, vou arrumar uma Época pra ler a sua entrevista!

    Abraços e tudo de bom!

  14. FABIO, parabéns pela emocionante entrevista com HAN, digo, INDIANA JONES!
    Assim como outros, também pude me sentir frente a frente com HARRISON FORD, valeu mesmo!

  15. Parabens!!!
    Quase chorei tbm ao ler. Entendo perfeitamente o que vc sentiu. E um daqueles momentos que definem o antes e o depois em nossas vidas. Parabens de novo!!!

  16. Barretão, pergunta estúpida.

    Nessas entrevistas não sobra uma brecha pra foto-tietagem? Tá certo que só a entrevista por si só já é um troféu absurdo, mas sabe aquela foto para a sua biografia não-autorizada a ser lançada em 2040? Seria uma ilustração e tanto!

  17. Concordei em gênero,número e grau com
    a emoção do jornalista ao entrevistar Harrison Ford,eu mesmo já fiquei com os olhos
    à beira das lágrimas de emoção e alegria ao
    ver Indiana Jones,sobretudo com aquela música maravilhosa ao fundo,imagina entrevistá-lo ao vivo!Já assisti muitos filmes desse incrivel ator e ele é maravilhoso em todos,lindo,carismático e
    eclético e excelente,fui assisti Indiana Jones e a Caveira de Cristal e no-
    vamente me empolguei como se tivessei voltado ao meus tempos de criança,eu e todos
    da sala,ele ainda faz acreditar que o bem e
    xiste.Assistem-os se empolguem e se emocio
    nem.
    Beijos,Maria 29 de maio de 2008.

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