[Opinião] Game of Thrones – Temporada 1: A Paciência Acabou

Game of Thrones chega ao final de sua primeira temporada com estrutura repetitiva, personagens monótonos e uma ausência de novidade tão fantástica quanto sua qualidade técnica e cenário ficcional!

PS: Isso é uma opinião pessoal, sem cunho jornalístico e fora dos padrões do SOS, por isso está na categoria BLOG.


Obras intelectuais são reflexos diretos de seus criadores. Apontar o óbvio se faz necessário para compreender o cerne de Game of Thrones, série da HBO baseada nos livros de George R. R. Martin. Ele se propôs a uma tarefa complicadíssima: inovar o gênero da alta fantasia, claramente sobrecarregado com novos autores, ideias recalchutadas e, habitualmente, vítima de forte preconceito fora do público nerd. Para pleitear tal conquista, ele precisou mudar muita coisa e apostar num estilo tão contraditório que o resultado é 8 ou 80, afinal, a linha que separa a risco criativo da banalidade repetitiva é praticamente invisível. E é aí que Game of Thrones, já cultuada e endeuzada por aí, falha absurdamente. Entretanto, por ter qualidade de produção muito acima da média e boa carga dramática, acaba escondendo sua faceta arrogante, levianamente desbravadora e repetitiva, traços da postura cínica e pessimista extrema de seu criador.

Spoilers daqui pra frente, leia por sua conta e risco. E, novamente pontuando o óbvio, é minha opinião sobre A SÉRIE (logo, não me venham com argumentos do tipo “mas o livro é assim, blabla; cada produto é fruto de uma mídia e deve funcionar de forma independente). O objetivo não é dizer se você deve assistir ou não, aliás, ASSISTA e na HBO, passa todo domingo! Nada de pirataria!

Curiosidade é uma das melhores armas de um bom escritor. Se ele não for capaz de despertar a curiosidade do consumidor, seu produto não vai funcionar. E ponto. Game of Thrones tem de sobra, nessa história ambientada num mundo tão ambiciosamente arquitetado que somente alguém avesso à fantasia para não se interessar e querer saber mais. Dragões? White Walkers? 7 reinos? Um monte de gente com nome esquisito? É um prato cheio! Para não dizer que vou ficar martelando no “elemento Tolkien” (conforme mencionado nesse texto, que não serve a essa discussão), cito um outro exemplo do qual gosto mundo e é praticamente unanimidade: Stardust, de Neil Gaiman; e de que esperava em termos de desenvolvimento.

Foi essa a impressão que tive quando o material surgiu e vi um promo no TCA do ano passado. Um mundo no qual eu teria vontade de viver, lutar e tomar porrada, afinal, tudo isso faz parte da vida. Sem ilusões de ser mocinho, principe encantado ou sujeito cheio de poderes fantásticos. Às vezes a pura perspectiva de fazer parte de algo assim justifica todo o esforço, todas as páginas lidas de madrugada, todas as horas em frente à TV e a preocupação de manter a noite de domingo livre para assistir em HD! Os três núcleos iniciais – Winterfell, King’s Landing e o Wall (não sei como ficou a tradução, algo como A Muralha?) – eram interessantíssimos. Novos povos, novas preocupações e um inverno meio místico, meio assustador, prestes a chegar e um passado glorioso cheio de batalhas. E tudo isso filmado na Irlanda, país pelo qual nutro um carinho e paixão especial. Entretanto, se três já parecia um número um pouco mais que ideal, quando o quarto núcleo – na terra dos cavaleiros Dothraki – apareceu a coisa começou a complicar. Não por complexidade, mas por exagero mesmo. Príncipes no exílio, cavaleiros bárbaros chegados numa boa peleja, avessos a longas conversas, e a ameaça de guerra foram insuficientes para aumentar o interesse e manter o ritmo, quebrado bruscamente toda vez que a ação cruzava um pedação do mapa e mostrava os Targaryen e Khal Drogo, personagem que, literalmente, entra mudo e sai calado. Se ele falou por mais de 5 vezes na primeira tempora inteira foi muito. Jason Momoa era uma das razões que me fazia querer ver a série por gostar muito do trabalho dele em Stargate Atlantis como Ronnon Dex.

Fato é, desde o princípio, Game of Thrones foi uma grande colcha de retalhos que tentava se mostrar familiar desde o princípio sem antes merecer tal familiaridade. Não houve muito tempo para apresentações e as maquinações que transformarão aquele mundo já estão em movimento quando conhecemos a honra dos homens do Norte, a relação incestuosa dos Lannisters, os pontos fracos de um rei sem amigos – nota especial para Mark Addy, sempre interessante em seus papéis – e uma realidade tão conturbada que vê-la desmoronar é outro fator capaz de gerar grande interesse e curiosidade.

Muito elogio para algo que, como diz o título, esgotou minha paciência, não? Talvez esse seja o problema, começou com muito potencial e cheio de histórias que gostaria de conhecer e sua condução se contrapõe à proposta inicial. Todo esse circo de fantasia, vários povos, um pouco de magia e passado glorioso é rapidamente reduzido a uma trama palaciana cujo objetivo é não ser arquetípica para, no fim das contas, ser até mais óbvia que as demais histórias que Martin tentou sobrepor. Ou, de forma mais direta, os personagens tentam ser tão humanos e longe dos clichês que é exatamente no que se tornam. E a coisa piora ao se constatar que não há praticamente ninguém na vasta gama de personagens apresentados que seja minimamente honesto e digno de identificação. É tanta pilantragem, tanta safadeza, tanto “reflexo do cinismo da realidade”, como alguém veio defender no Twitter quando critiquei a série pela primeira vez, que essa é a essência dos habitantes de Westeros (continente onde a coisa toda acontece), ou pelo menos, de seus indivíduos mais célebres.

De certo ponto da história em diante, Fox Mulder parecia acompanhar Game of Thrones conosco. Trust No One / Não confie em ninguém. Todo mundo do Sul era pilantra e todo mundo do Norte era bacana e honrado, mas sofria preconceito e, conforme comprovado, caia feito pato e todas as armadilhas das “pessoas reais” do Sul. Embora relute em inserir o nome de Sean Bean nesse texto, para evitar centralizar a crítica no destino patético de seu personagem, é inevitável falar sobre Eddard Stark, o grande vendedor da série para quem não leu os livros.

Desde a primeira vez que ele leva a pior – quando seu filho, Bram, é empurrado de uma janela ao “desmascarar” os caras maus da primeira temporada – começou uma relação interessante com quem ele era e o que faria dali para a frente. Bem, não saberemos de nada, pois ninguém contou o que ele fez e, acredito, numa tentativa desesperada de “demonstrar caráter e comprometimento em favor da história”, ele perde a cabeça – literalmente – ao insistir em apostar em sua honra, fazer o que era certo e evitar injustiças. George R. R. Martin deve ter sofrido muito na vida por acreditar nesses conceitos; sofreu tanto que quando teve a chance, puniu quem mais pensasse dessa maneira, enquanto ele se tornou um cético, putanheiro e descrente na honra. Analisando friamente, Game of Thrones tem bastante sexo para dar e vender, apunhaladas pelas costas em abundancia e o maior índice de frustrações por segundo na TV.

Para ser justo, há dois momentos que contrariam essa teoria: quando Lady Stark prende Tyrion Lannister e, com todos os méritos, todas as cenas em que Tyrion (Peter Dinklage) aparece. Rapidamente, esse fabuloso ator anão roubou a cena e, aparentemente, ganhou o respeito da maioria dos espectadores. Justiça seja feita, não vê-lo ganhando um Emmy no ano que vem vai ser injustiça digna de Martin. Bem, quem sabe o autor mereça ver sua série ser ignorada e trapaceada no Emmy, afinal, não é isso que ele prega? Que a natureza das pessoas é a da traição e do jogo de interesses?

Com as mortes de Eddard Stark (Sean Bean), Robert Beratheon (Mark Addy) e Khal Drogo (Jason Momoa), sobrou para Dinklage segurar a barra com um elenco bom, mas, basicamente, desconhecido – quem liga para Lena Headey, aliás?. Ele tem essa tarefa, pois tem mais tempo de tela na estrutra covarde de Game of Thrones. The Wall tem potencial imenso para desenvolvimento dramático, mas por se tratar de uma realidade mais simples, não permite tantas tramas previsíveis no tal “Jogo de Tronos”. Talvez por isso ainda tenha certo interesse, pois além da Muralha tudo é possível e ainda há a esperança de que exista algo na mente arrogante de Martin além das bobagens insistentemente pontuadas por esse texto. E é nesse cenário que existe uma das poucas esperanças da série: Jon Snow (Kit Harington), estreante habilidoso e com um bom personagem nas mãos. Seus dilemas são infinitamente mais realistas e interessantes que as maquinações da rainha Cersei (Lena) e toda a luta pelo poder.

Por falar em luta, é preciso explicar a afirmação de “estrutura covarde”. Critiquei a ausência de justificativa para tantos figurinos formidáveis e tanta falação sobre duelos e combates. Eles devem existir como elemento, não como fio condutor da trama, já que a escolha do autor é mesmo pelos bastidores. Isso ficou ausente por muito tempo e, finalmente, quando foi hora de desembainhar as espadas, o que a direçãod de Game of Thrones opta por fazer? Não mostra a primeira batalha propriamente dita! Quando os exércitos dos Lannisters e uma pequena força dos Stark se encontram, o público desmaia com Tyrion – o ‘narrador’ daquele episódio – e só volta a si na manhã seguinte, quando tudo acabou. Não há outro termo além de covardia para descrever essa decisão. O mesmo vale para o enfadonho último episódio, quando Daenerys Targaryen sobe na pira funerária de seu marido apostando na sua descendência dracônia, mas só é vista novamente quando o fogo se extinguiu.

Esses elementos não tornam a série ruim, para deixar claro. É uma questão de estilo, há espectadores que gostam de ficar uma hora passando raiva na frente da TV pelo excesso de personagens irritantes, unidimensionais e previsíveis em sua imprevisibilidade, ou há até quem admire esse modo de ser – fiquei indignado quando li algumas pessoas dizendo “torcer pelos Lannister”, mas esse já é um problema de caráter de cada um – e curta ver a sacanagem rolar solta.

Assim como uma obra de ficção é reflexo, mesmo que parcial, da índole de seu escritor, os efeitos no público também o são. Assim como seu modo de ver a criação e uso da fantasia. Podem me chamar de idealista e etc, mas vejo a cultura como algo dedicado ao crescimento do público, da educação multidisciplinar permitida por uma boa história e uma trama interessante – baseada na realidade ou totalmente ficcional – e, acima de tudo, gosto de ser respeitado pelos programas que assisto. A ideia de passar quase uma temporada esperando pela reviravolta de um personagem que termina morto só para que o autor reforce sua mensagem “a história é mais importante que os personagens” é infantil demais. Só gostamos de histórias por conta da jornada de seus personagens, se não houver personagens capazes de despertar esse interesse, não há história relevante. Ou pelo menos costumava ser assim, até que o hype começou a ditar o gosto de muita gente.

E, concluindo, não preciso ver uma série que mostre o quão dura e cruel seja a vida. Cresci num subúrbio, já sofri um bocado na vida e para ver pilantragem, basta ler o caderno de política de um jornal. É a mesma coisa, mas sem fantasias elaboradas, lobos leais e espadões decaptando pessoas a torto e a direita. Cada um na sua, realidade de um lado, ficção do outro.

E nada do Inverno chegar.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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