Faces da Guerra – I

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“Pais orgulhosos do sargento (…), em seu segundo período no Iraque”…

… diz uma discreta faixa frente de uma casa nas abastadas redondezas do Griffith Park, em Los Angeles. Uma bandeira dos Estados Unidos, mais volumosa e vistosa, completa a cena patriótica, digna de filme, não fosse a inegável realidade que afeta o país: há uma guerra em andamento e jovens como o sargento em questão podem, enquanto escrevo esse artigo, estar sob fogo da resistência iraquiana, feridos ou até mesmo mortos. O estado de guerra, porém, só é sentido por conta desses pequenos detalhes, que passam despercebidos aos sempre apressados moradores da cidade, sempre ocupado demais na direção de seus carros para notar situações como essa.

Diferente de Nova Iorque, que ostenta um posto de recrutamento no meio de Times Square – recém-vitimado por um pequeno atentado a bomba –, Los Angeles é mais discreta. Novos recrutas podem se voluntariar em plena Hollywood Boulevard, mas num prédio menos chamativo, com alguns cartazes de incentivo, mas nada parecido com o espetáculo high tech promovido em Manhattan. E é ali, em frente às estrelas da Calçada da Fama, fica a única lembrança clara e direta de que esse país encontra-se em guerra. Entretanto, os noticiários e o cinema ajudam a população a se lembrar disso.

Os ativistas aqui surgem com roupas politicamente corretas e pedem assinaturas contra a Kleenex, que não usa produtos recicláveis; postulam em favor dos pobres animais; e fazem blitzes para “abrir os olhos” para os males que a exploração do petróleo causam; mas nada de movimento contra a guerra, pelo menos nada organizado ou com o mínimo de vulto social.

Com sua população majoritariamente formada por imigrantes de origem latina – em sua maioria vindos do México –, Los Angeles é celeiro certeiro para soldados hoje em dia. O motivo? Estabilidade financeira, educação e, claro, o green card. Vivo ou morto, diga-se de passagem. Desde os atentados de 11 de setembro, o presidente George W. Bush determinou que pedidos de cidadania feitos por soldados não-americanos fossem acelerados e não passassem por tanta burocracia. Duas razões: aumentar a quantidade de voluntários e assegurar a moral dos já alistados. Por outro lado, Bush também decretou uma espécie de realistamento compulsório para soldados que já cumpriram sua carga obrigatória no exterior, chamado de stop-loss, algo como, evitar perda de contingente.

Estima-se que cerca de 20.500 soldados na ativa atualmente não sejam cidadãos norte-americanos, possuindo apenas green card ou outros laços com o país. Conhecidos como “green card warriors”, esses militares buscam estabilidade social para suas famílias por conta da aceleração do processo legal ou, em último caso, pela fatalidade. Em caso de morte em serviço militar, é praxe que a família do soldado falecido receba a cidadania como reparação pela perda e como forma de reconhecimento do país pelos serviços prestados.

Para não deixar dúvidas: o green card dá direito de residente e uma série de benefícios a seu portador; porém, apenas com a cidadania – processo mais complicado e demorado – é que o indivíduo passa a ter direito ao voto ou elegibilidade, por exemplo.

Por vias legais, desde 2001, cerca de 37 mil pedidos de nacionalidade foram processados e autorizados pelo departamento de Imigração em conjunto com o setor jurídico do gabinete das Forças Armadas. Cerca de 7 mil pedidos são feitos anualmente. Todo o processo leva dez meses para ser concluído. Os números, tanto de recrutas quanto de novos pedidos de cidadania, só aumentam e nem mesmo o crescimento dos ataques no Iraque impede essas cruzadas pessoais.

Vários desses aspectos são tratados no filme Stop-Loss, estrelado por Ryan Phillippe, uma produção da MTV Movies. A trama conta pelo que passam os soldados que lutam atualmente no Iraque e Afeganistão quando retornam para casa e, em muitos casos, são reenviados para a linha de frente mesmo depois do término de seu período obrigatório em serviço para evitar a “perda de contingente” a qual se refere o título. Cerca de 80 mil soldados já foram realistados sob a égide dessa ordem presidencial.

Indignado por essa situação e a perspectiva de retornar e morrer, o personagem principal tenta lutar contra o sistema, mas é barrado pelo desinteresse de políticos e juízes em tratar do assunto que, inegavelmente, contraria uma ordem direta do Comandante Supremo das Forças Armadas, o presidente. Sua única alternativa é deixar a identidade e a vida para trás e fugir para outro país. Por outro lado, o personagem latino da história, Rodriguez, rapaz de origem mexicana, cuja família mora ilegalmente no Texas, fica mutilado e cego ao ser atingido por uma explosão, mas, mesmo assim, diz que pretende voltar ao combate “pois se morrer, a família toda ganha green cards”.

Entretanto, a perspectiva de conquistar a cidadania por vias militares não é exclusividade de mexicanos. Os noticiários estão cheios de matérias e referências a alemães, asiáticos e até mesmo brasileiros servindo no Iraque e entrando com pedidos legais de cidadania. Essa realidade, curiosamente, deixa de ser apenas parte do drama das famílias envolvidas para ganharem as manchetes e também o cinema, dentro da volumosa quantidade de filmes que tratam sobre o assunto.

Diferente de suas outras guerras, os Estados Unidos tem a oportunidade única de avaliar suas ações e repercussões durante o conflito por meio do cinema e da TV, com produções como a série Over There, No Vale das Sombras, O Suspeito e Stop-Loss. A maioria dessas obras traz um conceito em comum: a desumanização sofrida pelos soldados na guerra moderna. Muitos deles filhos de veteranos do Vietnã, os novos GIs – transformados em verdadeiras máquinas de matar – enfrenta cada vez mais problemas quando voltam para casa. A readaptação é difícil, o próprio Exército prepara as famílias para situações que podem acontecer, mas cada indivíduo responde de um jeito. Todos têm algo em comum: a dificuldade de aliviar a mente do constante estado de alerta vivido durante o serviço.

Sem suporte e constantemente acometidos por disfunções de personalidade e acessos de violência, os novos veteranos encontram pouco auxílio por parte do Exército, desconfiança de amigos e parentes e, em muitos casos, o suicídio acaba sendo a solução. Há inúmeros relatos de ex-soldados que tiram a própria vida por não conseguirem se livrar dos pesadelos, do medo e da inabilidade de voltarem ao convívio social depois de vivenciarem a realidade da guerra. O grande número de casos de problemas psicológicos sobrecarrega os hospitais militares e outros locais capazes de tratar tais problemas, o que sujeita os pacientes a uma longa lista de espera. Muitos não esperam pela vaga e perdem totalmente o controle. Casos de suicídio são mais que comuns nas estatísticas que envolvem os veteranos.

Entretanto, mesmo com toda essa análise proposta pela indústria – que não polpa críticas à condução da guerra e seus efeitos – pouco acontece efetivamente. Durante uma exibição de Stop-Loss, quando o personagem de Ryan Phillippe perde o controle e grita um sonoro “f…-se o Presidente”, um início de manifestação de apoio foi sentido, com palmas, assovios e gritos, mas logo o silêncio retornou à sala. É hora de refletir, defendem muitos locais, não de gritar. O argumento faz sentido quando confrontado com a hora de agir: as eleições presidenciais. Os republicanos de John McCain defendem a continuidade e a validade da guerra, enquanto a massa que transforma Barack Obama no candidato natural dos democratas tem uma idéia bem fixa em mente: ele foi contra a guerra desde o início, o único, aliás.

Pelo menos para o povo norte-americano, é hora de escolher um lado. Ou não. As pessoas sabem, mas, mesmo assim, preferem permanecer fechadas em seus carros para não ver os pequenos dramas pessoas que compõem um país constantemente em conflito e fazer de conta que o problema não é delas. E aqui é assim que a coisa funciona. Cartazes de políticos? Nas janelas das casas, colocados internamente, deixa claro que o interesse político é bem delimitado. Propagandas coladas nas ruas amanhecem rasgadas e qualquer outro tipo de manifestação pública é vista com descaso. O número assustadoramente baixo de votantes registrados comprova isso. Mais assustador, porém, é o número oficial de mortos até agora: 4.005 soldados norte-americanos (dados anteriores à nova onda de ataques à chamada Zona de Segurança, em Bagdá, no final de março). Outros 30 mil foram feridos em combate.

E, ao que tudo indica, esse cenário – e suas diversas faces – só muda com uma eventual nomeação e vitória de Barak Obama nas eleições presidenciais. Mesmo assim, muita gente vai fazer vista grossa e só se preocupar com a economia e o preço da gasolina. Nada mal para a “população votante” que decide o destino de vidas e, mesmo sem ligar, do mundo. Por enquanto.

* As opiniões desse artigo são baseadas na mera observação de acontecimentos e situações cotidianas, e na cobertura nacional da ocupação norte-americana no Iraque. Excetuando-se os dados numéricos, nenhuma pesquisa oficial norteia esse texto

Reportagem: Fábio M. Barreto

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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