Carta Aberta a Michael Bay

Quando a verdade se torna relativa e a confiança desce ralo abaixo, como continuar acreditando no mundo utópico de uma cobertura jornalística válida?

Caro Michael,

Gostaria de lembrá-lo da primeira oportunidade em que conversamos. Foi antes da estréia de Transformes 2. Sei que você não gosta muito desse negócio de falar com a imprensa, afinal, boa parte do pessoal desce a lenha em seus filmes – a maioria com razão – e alguns nem te consideram um diretor sério. Fato é, goste ou não, temos que conversar. Faz bem para os seus filmes e, alguns poucos jornalistas, incluindo esse humilde reporter, estão dispostos a entender os diretores e criadores capazes de inspirar respeito ao realizar filmes grandiosos como Armageddon e Pearl Harbor. Você gosta de editar e de trabalhar. Também sei disso. Você foi bem claro em nosso papo, embora não precisasse ter dito nada, afinal, aquela cara azeda logo cedo dentro da sala de projeção na Sony, lá em Culver City, disse tudo. Respeito sua posição, de verdade. Melhor deixar claro do que não gosta do que ficar tentando atuar e tratar a gente com falsidade. Mas não é sobre nada disso que quero falar. Quero te cobrar uma coisa. Aliás, quero cobrar de você e de seus colegas algo fundamental; algo distante da realidade do jornalismo cultural; algo capaz de colocar essa relação em risco. Quero cobrar um discurso próprio, a verdadeira postura, sua visão, ou melhor, você! E não essa lenga-lenga imposta pelo estúdio, pelo seu assessor pessoal e pela obrigatoriedade de fazer tipo contra sua vontade. O motivo da cobrança? Você foi categórico em uma declaração: ‘serei o último diretor de Hollywood a filmar em 3D; não gosto do formato‘. Menos de dois anos depois o que aparece? Trailer de Transformers 3 em 3D! E além de cobrar, pergunto: como confiar em ti numa próxima entrevista?

Grato,
Fábio M. Barreto, correspondente e sujeito que acreditou na sua palavra e contou para os outros!

Gostaria muito de mandar essa carta a Michael Bay, de verdade. Mas ele não seria o único. Zack Snyder mereceria uma cópia, assim como o picareta do Louis Leterrier (que dirigiu Hulk e a aquela galhofa de Fúria de Titãs), que fez alarde com a “aparição do Capitão América” no Hulk e nunca aconteceu, e muitos outros nomes de Hollywood. Depois de três anos encarando o ritmo pesado de Los Angeles e realizando dezenas de entrevistas por mês, fiquei estarrecido ao notar um dos piores elementos da dinâmica imprensa & entrevistados. Poucos são os atores e diretores que realmente falam o que pensam. Já estava com isso em mente, mas resolvi escrever quando uma grande amiga chamou atenção ao fato de que Coppola fez questão de ficar sozinho na sala em cada uma de suas entrevistas e, acima de tudo, criticou, ousou, elogiou, falou pelos cotovelos sem medo de ser feliz. Em entrevista clássica à Rolling Stone, Marlon Brando reclamou desse sistema, no qual o “correspondente faria aquela matéria básica de correspondente, usaria 3 ou 4 aspas e pronto”. Nada mudou.

Quer dizer, piorou, pois agora achar uma mente hábil e corajosa para ser autêntica é tão difícil quando achar uma pepita de ouro em Serra Pelada nos dias de hoje. Michael Bay ficou com ódio da pergunta sobre o 3D. De verdade. Cerrou o punho e parecia ter sido ofendido pela minha colocação, afinal de contas, Transformers sempre pareceu uma boa ideia com a tecnologia, por razões óbvias. Fez um discurso a favor da película e sobre não gostar do 3D – que inclusive está registrado em áudio no SOS Cast 12, sobre o Mercado 3D, é só ir lá e ouvir! Pode ter sido sua verdade naquele momento, o que sentia naquele momento, mas nunca vi tanta convicção voar pela janela tão rápido. Agora ele elogia, diz que adorou, contra-ataca boatos de que teve problemas com o sistema ao dizer que Transformers 3 é “o melhor 3D já feito”, e etc. Verdades eternas não existem, claro. Ele tem todo o direito do mundo de mudar sua opinião (especialmente se o estúdio mandar). Atire a pedra quem nunca reviu um conceito. Entretanto, essa atitude é sintomática numa Hollywood cada vez mais desgastada e falsa. É duro dizer e assumir. Vivo disso. Vivo do contato com essas pessoas. A imprensa internacional é tratada de forma secundária aqui, fato. Um blogueiro americano famosinho tem mais acesso que o maior jornal da Alemanha ou da Itália, por exemplo. Mesmo assim tem gente tentando o “furo” sobre um novo filme. Eles nunca falam. Ficamos com a sensação de sermos pessoas desinformadas ao tentar investigar algo interessante e basta sair do “roteiro ideal” de perguntas que estúdios picaretas como a Warner Bros., por exemplo, te colocam em listas negras. Já contei que a WB me acusou de ter dado em cima da Ashley Greene? Enfim.

Numa situação semelhante à de Michael Bay, cito a última entrevista com Zack Snyder. Ela aconteceu antes do anúncio de seu nome para a direção do Superman. Perguntei se ele tinha alguma negociação para adaptação da DC e, sem pensar muito, respondeu que não falava com a DC há um bom tempo. Nem uma semana depois, Chris Nolan anunciou seu nome. Isso é maior que meu ego ferido, pode apostar. Vejo acontecendo com repórteres de diversos países, especialmente os que tentam fazer algo fora da “pergunta genérica”, ou seja, “como você se envolveu com esse projeto? como foi trabalhar com fulano? foi legal filmar as cenas em 3D?”. Claro que Nolan pode ter ligado para Snyder um dia antes do anúncio, afinal, quem recusaria uma oferta dessas? Mas a impressão de que impedir qualquer coisa fora do roteiro paira no ar.

Lembro de uma brincadeira que o Paul Guilfoyle, de CSI, fez quando o elenco da série foi ao Brasil pela primeira vez. Alguém perguntou sobre como cada personagem fazia para ter mais espaço, e ele disse que William Pettersen era sobrinho de Jerry Bruckheimer. Falou de forma séria, como se fosse fato verídico. Muita gente publicou. Erraram por não pesquisar, mas esse tipo de atitude é dúbia. Precisamos confiar no entrevistado assim como ele precisa confiar no entrevistador. Depois de submeter números de tiragem, tamanho de cobertura, datas de publicação, ser aprovados pelo escritório local, pelo escritório de Los Angeles e pelo assessor direto do artista em questão, assinar embargo sobre o filme, assinar embargo para a entrevista, não poder entrar com telefone no cinema, ser revistado com detector de metais, ser lembrado de que não é possível tirar foto com o artista e de que é proibido fazer perguntas pessoais, o mínimo esperado da outra parte seria sinceridade e informações úteis. Cansei de jogar entrevista de round-table ou coletiva de imprensa no lixo. Muitas vezes vai na sorte. Do sujeito gostar da sua pergunta e fazer valer todo o esforço, mas, ultimamente, a coisa está difícil. Como responsável pelas entrevistas, preciso ser o primeiro filtro de qualidade. Vender porcaria não existe, então, é preciso batalhar durante a entrevista, torcer para que o grupo da mesa-redonda seja bom e que o artista esteja de bom-humor. Diversos fatores para que meu trabalho possa, ou não, ser bem-sucedido.

Sinceramente, parece uma relação que chegou ao fim. Um casamento para inglês ver, no qual cada um dos lados pensa de um jeito e todo mundo faz de conta que está feliz. Quer mais um exemplo? Há uns dois anos, participei de uma coletiva com Dustin Hoffman e Matthew Broderick. Era perto do fim do ano, então sempre aparece um tablóide inglês ou jornalista sem noção que pergunta coisas sobre as Festas de Fim de Ano. Perguntaram ao Hoffman sobre seus planos. Prontamente, ele respondeu: não vou fazer nada, ficarei em casa, nada especial. Depois que tudo terminou, fui pegar um café com leite e, por coincidência, os dois atores estavam conversando ao meu lado. O papo corria solto e Hoffman estava contando ao Broderick que tinha altos planos para o Natal, que viajaria para encontrar a família, que fariam isso e aquilo. Como tenho interesse no lado profissional, pouco me importava, mas isso demonstra esse lado negro da imprensa cultural. Eles falam o que querem, a gente – os sérios – sofrem para justificar o investimento. Sim, investimento. O estúdio confiou em mim para fazer a entrevista, então tenho que devolver algo de igual valor para que o ciclo se renove. Mas os atores não confiam. É a superexposição.

Como o acesso está gigantesco ultimamente, eles precisam se proteger. Fato. A imprensa norte-americana é mal preparada, só sabe viver do sensacionalismo – algo que vários sites e revistas semanais brasileiros estão aprendendo a passos largos, infelizmente – e tem uma demanda volumosa. Precisam perguntar muito. Pensam pouco. Então, rapidamente, a vida pessoal entra na onda. Os artistas se retraem e todo mundo paga o pato. Amigo meu – que não é nerd e vive no mundo ‘sério’ da política e da economia – diz que fazemos jornalismo de elevador. Recuso-me terminantemente a aceitar que ele esteja certo, primeiro por orgulho das minhas entrevistas, depois por não aceitar uma definição tão mortal para o trabalho. Se é distração passageira, nada do que faço ou penso faz diferença. O cinema mudou minha vida, me ensinou, me guiou e, de certa forma, foi a base da minha vida. Acreditar que viver em algo tão irrelevante seria o mesmo que destruir tudo aquilo que eu e você gostamos e apreciamos.

Estou em Hollywood para ajudar a levar cultura a um país tão carente de criatividade cinematográfica, de idéias simples, de coisas boas que podem melhorar uma vida. Um dia assisti a um filme e li uma revista sobre o tema. Decidi aprender inglês para ver filmes sem legenda. Acabei conhecendo minha esposa e, hoje, isso é minha vida. Como consumidor, acredito no cinema e em seus realizadores. Infelizmente, muitos deles não acreditam em ninguém que seus assessores não deixem que acreditem. Se um dos lados já perdeu a fé, quando o outro perder, o que vai acontecer? O jornalismo já sofre com a incapacidade de compreender o efeito do jornalismo2.0, os grandes periódicos americanos ainda se seguram frente ao levante dos blogs – que tem mais fontes que os veteranos -, mas por quanto tempo? Hollywood precisa de uma nova dinâmica e, acima de tudo, de fé nos profissionais que distribuem sua magia mundo afora.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

    Saiba mais sobre mim:
  • facebook
  • googleplus
  • linkedin
  • twitter
  • youtube

14 thoughts on “Carta Aberta a Michael Bay

  1. Wow! Eu não sabia que vida de jornalista era tão complicada! Fábio, sou sua fã! Já lia seus textos na Sci-Fi News e agora acompanho o SOS…Amo cinema e desde pequena gosto de ler matérias á respeito, mas ultimamente entrevistas de atores ou criadores são coisas muito cansativas. Parece tudo ensaiado…

  2. Fábio, parece dose. Não diria só que Hollywood está sem criatividade – ela, até onde consta, só tem feito o que faz há anos: propagandeado sua imagem, mesmo que seja negativa – diria que muito da arte do entretenimento mundial está perdendo a criaividade, seja do lado que produz, seja do que recebe,seja do inquisidor. Acho que quanto mais barreiras se coloca, mais rapidamente há chances de elas caírem; uma verdadeira Torre de Babel. Já tá na hora dos realizadores se colocarem como o Coppola, como vc disse, e terem nivel de autocrítica e responderem de verdade.
    Btw, se puder, traduza a carta para o Michael Bay e manda por correio e com uma estrelinha selando o envelope! xD

  3. Pro Diabo com Michael Bay! Se não me engano, Sean Connery, em “A Rocha”, reclamou do “diretor” durante as filmagens. Ali surgia Michael Bay. E Connery avisou…

    E essas declarações sobre uso de 3D e outras falsas afirmações só mostra o quanto esses caras não estão comprometidos com nada. São apenas paus mandados dos estúdios. Se Hollywood bate o martelo, o problema é desses diretorzinhos de araque que falaram à imprensa sem um “media training” RÁ!
    Abs!

  4. Concordo com você, é chato e chega a ser humilhante a forma que alguns figurões tratam não só os jornalistas mas quem mandam mais que eles.
    Agora sobre a impressa especifica, há casos e casos não dá pra condenar alguém famosos por mentir sua vida pessoal. Já pensou se o Hoffman dissesse onde vai passa o natal? Ou no caso do Snyder, o segredo não é de prache em situações onde não se tem um contrato assinado, quer dizer e se ele diz que tá e ná hora um executivo muda de idéia?
    É claro também que isso não justifica tratar, no caso destratar, a impressa como um coisa qualquer, principalmente quando é o principal meio de divulgação do trabalho deles então o que se espera é que tanto um quanto o outro tratem o da frente com pelo menos o minimo de cortesia.

  5. Infelizmente não só o jornalismo, mas praticamente todas as áreas estão niveladas por baixo. Cabe a alguns poucos profissionais [ você é um deles ] enxergar fora do quadrado e não ter medo de dar a cara a bater.
    Michael Bay é uma nulidade em termos de qualidade, mas é uma peça perfeita do ponto de vista da indústria. Faz o que querem, como querem, ganha bem por isso e devolve na mesma moeda com ótimas bilheterias.
    Não julgo outros atores / diretores por se privarem tanto do convívio com pessoas “normais”. Afinal quando falam A, boa parte dos meios no dia seguinte publica B, C ou D. Precisam se precaver. Mas infelizmente a coisa está chegando em um ponto insustentável. Triste ver a cidade dos sonhos despertando para uma triste realidade.

  6. Cara que constatação triste essa que o fabio chegou(ou revelou?) nesse post…

    De qualquer forma eu gostaria de dizer, e ja deveria ter dito, que apesar de não compartilhar da grande maioria das opniões do Fabio Barreto acho que ele faz as melhores entrevistas de cinema que eu ja vi. Sempre tenta levar a entrevista pro lado mais cabeça da coisa, uma pena que esses atores tenham hoje em dia esse tipo de resistencia. Bom seria se todos as celebridades dessem entrevista com um Aryton Senna ou algo parecido.

    Mas enfim, eu acho que realiza um grande trabalho fazendo as entrevistas.

  7. Muito bom o texto (como sempre), mas concordo com o Andrei, em alguns casos como o de Snyder e o do Hoffman é compreensivel a atitude. Mas obviamente não justifica o tratamento desrespeitoso para com a imprensa.
    Ao meu ver, os próprios jornalistas devem tomar iniciativas para esse problema, do mesmo modo como vc está fazendo com a carta para o Bay, dar um “basta” nessas atitudes infantis e abrir um pouco o jogo.
    Parabens Fabio, e eu acho que vc deve seguir com essa ideia.
    abraços.

  8. Pois é Fábio,

    parece que a falta de autenticidade, de criatividade e de verdade não para apenas no jornalismo e nos grandes estúdios. Parece algo que permeia todo o planeta, como o simbionte do Venom.

    Assim como você, tem dias que me decepciono com os filmes e com os atores! Cresci com o cinema e a TV e adoro essa mídia!

    Foi emocionante ver Ryan Reynolds recitando o juramento dos Lanternas Verdes. A atuação de Heath Ledger em Dark Knight me fez chorar por esperar ver AQUELE Coringa que eu conheci nos quadrinhos e de saber como foi sua preparação, fico ainda mais triste pela sua perda! Esses momentos verdadeiros e espontâneos parecem não existir mais!

    Se você assiste um episódio ou 10 do “Inside the Movies” da Warner Channel, pode colocar Daniel Hadcliffe falando com as imagens de CREPÚSCULO que vai dar na mesma!

    “Foi incrível atuar com essas pessoas fantásticas. O diretor nos deixou muito a vontade… atuar com fulano foi um aprendizado…”

    Ser um pouco espontâneo não dói Hollywood folks! Queremos novidades! Queremos entrevistas autênticas! Queremos saber suas VERDADEIRAS opinões! Queremos mais respeito com os jornalistas e com os FÃS!

    Rest my case.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *