Nosso Mundo Merece um Novo Tipo de Criminoso?

O fenômeno Coringa em Batman: Cavaleiro das Trevas chamou a atenção pública para o perfil psicopata capaz de aterrorizar uma cidade, porém, ele não passa de um poderoso catalisador para uma nova realidade em Hollywood, que, mais do que nunca, dedica suas maiores realizações ao sujeito imprevisivelmente violento, sem motivações políticas… alguém puramente insano.

Falar em vilões ou personagens malucos sempre suscita a menção a alguns filmes famosos, mas em vez de ficar citando arquétipos clássicos ou obras estreladas por Jack Nicholson, precisamos olhar para a atualidade desse tema. A temporada de filmes do ano passado chamou a atenção para um perfil incômodo de indivíduo. Daniel Plainview viveu no extremo por conta de sua ganância em Sangue Negro, enquanto Anton Chigurh matava indiscriminadamente com sua arma de ar comprimido no Texas de Onde os Fracos Não Têm Vez. O Coringa que aterrorizou Gotham City chegou apenas para fechar esse trio assustador, mas não inteiramente malévolo sob o aspecto sócio-religioso.

O que há em comum entre esses personagens? Eles são inteligentes, eficazes, autênticos e memoráveis. Boas características, certo? E tudo isso também é esperado dos heróis, porém, excetuando-se o Coringa, que enfrenta ninguém menos que Batman, os outros sujeitos se tornam excepcionais no mundo de hoje, onde o herói mascarado não existe e cujo roteiro não é feito para finais felizes. É a vitória da genialidade sobre a mediocridade e acomodação social.

Embora separado por décadas, o mundo de Plainview e Chigurh reflete a necessidade social para a existência do homem inescrupuloso em termos interpessoais e fazedor de suas próprias regras. Essa constatação permite arriscar a afirmação de que precisamos desse tipo de personagem ganhando força no atual momento. Vários são os fatores. O primeiro, e mais óbvio, é a necessidade não da mensagem politicamente correta do “seja quem você quiser” tão falada pela campanha de Barack Obama, mas sim a idéia de que “sua vontade deve ser respeitava e pode ser realizada nesse mundo”.

Outro elemento é a não-frustração presente nesses indivíduos. Por desconhecer barreiras alheias a seus desejos, eles são capazes de realizar todos os seus objetivos. O fato de tais conquistas serem deturpadas e condenáveis não afeta em nada aqui, afinal, na cabeça deles, tudo faz sentido. Heróis questionam suas motivações, reavaliam ações e vivem em constante crise por conta da validade de seu trabalho. Chigurh não perde tempo com isso, ele impõe sua lógica e lei. Já Plainview vê o mundo como uma eterna batalha da qual somente ele pode, e vai, vencer. E o que dizer do Coringa transgredindo tudo e todos, matando a esmo em larga escala apenas para acabar com o Batman e provar sua superioridade intelectual?

Claro que o aspecto negativo surge violentamente ao se imaginar um lugar onde todos se canibalizam em prol do benefício próprio. O cinema cansou de mostrar homens como Gordon Geeko, vilão odiável do início ao fim justamente por ser caricato e previsível em sua maldade. Ninguém esperava por um sujeito com uma arma de ar comprimido, por exemplo, enquanto o executivo sem alma se tornou clichê sem força. Finalmente, o óbvio deixou de ser a regra e espaço para novas leituras aparecem.

Obviedade ou construção caricata não são problemas para Plainview, Chigurh ou o Coringa. Eles são donos de um carisma curioso, mas causam fascinação justamente por deixarem o espectador sem saber como reagir a seus repentes de insanidade. Aquela velha história da “área cinzenta” entre o certo e o errado há muito caiu por terra, caso não tivesse, o atual momento não deixaria dúvidas: os grandes roteiristas, que ainda defendem o cinema autoral, cansaram do formato dicotômico de antigamente. Curioso dizer que justamente o Coringa, sempre ligado ao extremismo visual por sua maquiagem, não é caricato. Ele já não era engraçado com Jack Nicholson e agora ficou pior ainda com Ledger.

Acima de tudo, esses personagens funcionam como resposta ao surto de sucesso dos super-heróis na telona. Jon Favreau comentou comigo que o grande momento é resultado direto dos efeitos de 11 de setembro e a necessidade, especialmente do povo norte-americano, de reencontrar sua força e a capacidade de superar a dor. Bem, por um lado ele tem razão, mas há muito ódio contido nessa situação e super-heróis não são os melhores catalisadores, afinal, não importa quantas vezes o Homem-Aranha lembre-se que “com grande poder vem grande responsabilidade”, o sentimento mais interno, reprimido e profundo é o de “quero usar esse grande poder para quebrar o Bin Laden ao meio”. Essa possibilidade de extravasar existe no mundo de Plainview, com suas explosões emocionais, sem sombra de dúvidas não seria um problema para Chigurh, que caminharia tranqüilo até seu alvo e faria tudo que o exército não conseguiu e, claro, seria deliciosamente aproveitada pelo Coringa enquanto explodiria metade do Afeganistão.

Esses “novos” vilões fogem do antigo formato imortalizado por Darth Vader ou Hanibal Lecter. O charme deu lugar à agressividade sem rodeios. O deleite de Lecter deu lugar à frieza com que Chigurh pede para uma de suas vítimas ficar quieta por um segundo antes de matá-la; a postura impiedosa de Vader se perde na fantasia quando Plainview esmaga a cabeça do pastor em sua pista de boliche; e o que dizer do surto psicótico de Jack Nicholson em O Iluminado se comparado à vida permanentemente psicótica do Coringa de Heath Ledger que não precisou de fantasmas para atormentá-lo?

Novos tempos, novos modelos, novos tipos de criminosos. Uma mesma necessidade: ver nossas facetas na tela grande, mesmo que, nesses casos, elas sejam aquelas mais reprimidas e condenáveis. Afinal, quando a luz apaga e a cortina sobe, tudo pode acontecer. Mas que as realizações permaneçam no mundo da fantasia cinematográfica ou nas ruas eternamente violentas de Gotham City, também conhecidas como os recônditos na mente humana, onde a natureza agressiva e o heroísmo não têm vez e a mediocridade é recompensada com uma morte ridícula e inútil.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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16 comentários sobre “Nosso Mundo Merece um Novo Tipo de Criminoso?

  1. SENSACIONAL análise!

    É de se “perder” horas pra analisar a genialidade destes “vilões”, tentar entender seus propósitos…

    Eu tava discutindo isso com o Bó ontem, mais especificamente sobre o Coringa e sua genialidade. O senso de Yin/Yang é o que melhor define, pra mim, esses 2. Um não vive sem o outro. Um não existe sem o outro. E curiosamente, quem sabe disso é o vilão! 😛

  2. Bela análise, inicialmente achei meio estranho incluir o Plainview como “vilão” ao lado dos outros. Porque ele é um homem são perto de psicopatas do nível do Anton e do Coringa. Mais logo fez sentido: ele é um homem ambicioso, egocêntrico sem muitos escrúpulos, e disposto a tudo para vencer. Praticamente um síbolo do capitalismo. A ironia é notar que foram homens assim que moveram o mundo, trouxeram o progresso.

    O ambiente em que Plainview age, meio faroeste, me fez associa-lo imediatamente ao tradicionais vilões do western, dos filmes e principalmente dos gibis do Tex. São aqueles comerciantes que dominam cidades e enriquecem as custas da exploração dos pobres e masscrando os índios. Como na vida real não houve um Tex Willer pra detê-los, como sempre acontece nas hq’s, eles construíram os EUA, e de certa forma, o mundo.

  3. “Novos tempos, novos modelos, novos tipos de criminosos. Uma mesma necessidade: ver nossas facetas na tela grande, mesmo que, nesses casos, elas sejam aquelas mais reprimidas e condenáveis. Afinal, quando a luz apaga e a cortina sobe, tudo pode acontecer.”
    Texto inspirado, FÁBIO!
    Mesmo adorando a interpretação realista, assustadora e imprevisível dos neo-vilões, a la JOKER, PLAINVIEW, CHIGURH e GREENE, torço para que ainda exista espaço para as caracterizações de vilões exagerados, megalomaníacos e previsíveis, tais como GEKKO, VADER, KRUEGER, BLOFELD e outros, uma vez que aprecio ambos os estilos de atuação.
    Saudações,

  4. Daniel Plainview viveu no extremo por conta de sua ganância em Sangue Negro, enquanto Anton Chigurh matava indiscriminadamente com sua arma de ar comprimido no Texas de Onde os Fracos Não Têm Vez. O Coringa que aterrorizou Gotham City chegou apenas para fechar esse trio assustador
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    engraçado

    eu fechei esses 3 na lista dos 3 melhores filmes do ano

    coincidência?

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