NFL: Anos-luz do Brasileirão

Mais rico, mais relevante e com mais dedicação da imprensa. Essa é uma curta análise de como a NFL pode ser comparada ao nosso grande campeonato. Nova temporada oferece lições a serem aprendidas por todos, especialmente a Rede Globo.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Norte-americano leva o futebol dele a sério. Demais. E por ser um fenômeno cultural, uma obrigação quase religiosa, que envolve paixões e fortunas, o início da temporada 2010/2011 – que começou na semana passada – gerou um gigantesco movimento de mídia. Jogos no Facebook, milhares de novas Fantasy Leagues, propagandas, grade de TV repleta de filmes ambientados no universo do futebol americano e, muita, mais muita promoção de venda de televisores HD. É uma festa, mas, analisando friamente a transmissão das partidas, eles dão um baile no que a Rede Globo considera a “melhor cobertura” do Campeonato Brasileiro. Estou confundindo alhos com bugalhos? Não. Em importância, os dois esportes são equiparáveis e, se os gringos fazem o melhor pela NFL, bem, os brasileiros devem fazem o melhor pelo Brasileirão. E dinheiro é o menor dos problemas.

Ontem aconteceu o embate entre Washington Redskins e Dallas Cowboys, em Washington. Com início programado para 5h15 (horário do Pacífico), o jogo ocupava o horário nobre do esporte, o chamado Sunday Night Football. Entretanto, chamou minha atenção o fato de que a NBC começou a falar de futebol americano 1h30 antes do jogo. Achei estranho e pensei que só veria bobeira ou propaganda, mas foi um dos programas pré-jogo mais completos que já tive oportunidade de assistir. E tudo isso durante a primeira rodada do campeonato.

Cresci acostumado com aquele lero-lero de 20 minutos de pré-análise feita pela equipe da Globo, com muita opinião e, quando mundo, Leo Batista narrando aqueles gols do Pirapora de Bom Jesus contra Marrequinhos do Oeste, no regional do Tocantins! [repararam que nunca tinha gol do Acre? o_O]. E, por questão de criação, pensei que esse era o melhor jeito. Ou melhor, o jeito certo. Como fui tolo.

Durante o pré-jogo da NBC – que é um canal aberto, assim como a Globo -, a equipe tratou do início da temporada, mostrou matérias, entrevistas com os principais jogadores [incluindo Tony Romo, o QB dos Cowboys], stats e, só bem perto do começo do jogo, especulou sobre os resultados. Seria algo como colocar um Globo Reporter, ou um dos programas da ESPN, antes do jogo.

Apreciei demais o respeito, e devida exploração comercial, feita em cima do principal jogo do fim de semana. No total, foram mais de 4h de futebol americano – repletos de intervalos, claro – em alta definição. Em termos de edição das partidas, ainda fazemos frente. Os editores da Globo são bons e, pela natureza confusa dos lances do futebol americano, os caras não sabem o que procurar, às vezes. Ponto pros brazucas.

Mas em termos de pacote completo, levamos uma lavada. Especialmente quando o jogo acaba. A reportagem de campo é similar, e divertida, afinal ver a repórter da NBC ao lado dos brutamontes do Redskins foi engraçado pela desproporção física. Entretanto, o canal continuou cobrindo o jogo até o término da entrevista coletiva e aquele trabalho de vestiários, que, no Brasil, sempre foi trabalho exclusivo das rádios. Ah, mas a NFL tem mais dinheiro! Tem e nem vale a pena comparar patrocinadores [só o que as montadoras de automóveis gastam é uma barbaridade], mas construiu essa força ao longo de anos. É tara pura. Esses caras respiram futebol [público e profissionais] e, como sabemos, ganham muito mais que os brasileiros. Seja no campo ou fora dele. Quantas vezes não vimos jogos serem encaixados no meio daquele espetáculo de boçalidades promovido pelo Faustão?

É um reflexo da fragilidade do futebol brasileiro, que se contenta em ser celeiro de talentos e de, agora com a perspectiva americana, um mero passatempo perdido em meio ao desespero por índices de IBOPE obtidos em lutas homéricas para, sempre que possível, reduzir o nível de seu público e apostar em sua ignorância.

Não sei o que é pior, considerar o público burro ou não fazer nada para ajudá-lo. Por aqui, todo fã de futebol é a pessoa mais esclarecida, fanática e dedicada do mundo. Não importa se é classe C, D, E, A ou B. Não importa a música que gosta. Domingo é dia de Futebol Americano. E não se fala mais nisso. A ESPN Brasil entende disso, mas dói muito saber que o conteúdo de TV aberta nos Estados Unidos só é encontrado na TV a cabo brasileira.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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25 comentários sobre “NFL: Anos-luz do Brasileirão

  1. O nosso brasileirão tá nas mãos da Globo, por enquanto,e é fato. A maior renda dos clubes vem dos direitos de imagem. Estou exagerando, é claro, mas os direitos de imagem (segundo vi estudos) chegam a 50% da renda dos clubes.
    O problema é que naquele fatídico campeonato de 87, a Globo entrou agressiva na parada, e com isso, ela manda no campeonato brasileiro (quem em sã consciência quer jogar 10 da noite)?
    O que nos resta é esperar uma emissora querer brigar com a Globo, como a Record vem tentando, e tentar fazer melhor…

    Esperemos…

  2. Assisti a transmissão da NBC e concordo com tudo que você escreveu, a diferença da seriedade da cobertura do Football nos Estados Unidos e do nosso futebol é absurda.

    Hoje tem o Monday Night, diferente do Brasil, várias emissoras fazem a transmissão da temporada da NFL, o que aumenta os valores de direitos de imagem e empresas interessadas em patrocinar a liga, falta organização e visão de mercado, além do monopólio que impede o crescimento do Brasileirão.

    1. de fato, existem várias redes com os direitos dos jogos, mas o esquema é assim:
      AFC: CBS, transmissão regional
      NFC: FOX, transmissão regional
      Sunday Night Football: NBC, nacional
      Monday Night Football: ESPN, nacional (também transmitido em emissoras abertas das regiões do mandante – se lotar – e do visitante)
      Thursday Night Football: NFL Network, nacional (mesmo esquema da ESPN)

      repescagem (wildcard): NBC, nacional
      pós-temporada AFC: CBS, nacional
      pós-temporada NFC: FOX, nacional
      Pro Bowl / Super Bowl: NBC, CBS e FOX, se revezando a cada ano, em rede nacional

  3. Cara concerteza nosso futebol não tem organização, é tudo culpa do Monopólio.
    Mas o maior problema… é que NÃO AGUENTO MAIS futebol. a SporTV por exemplo.. só fala em futebol cara… em todos os programas.. é só futebol. Na globo… “globoesporte” deveria ser “globofutebol”.
    Não precisamos só de investimento na qualidade do futebol. Mais sim.. em todos os outros esportes. Temos alguns dos melhores atletas do mundo… mais quem sabe disso? ninguém… porque só se fala em futebol por aqui.
    Precisamos de investimentos e qualidade NO ESPORTE BRASILEIRO, não somente no FUTEBOL.

    Meu desabafo.

  4. Isso que eu chamo de polivalência. O cara arrebenta nas matérias sobre Cinema e agora manda um texto bacana como esse falando de NFL e Brasileirão. Parabéns Barretão.
    Esse tema é pano para uma manga bem comprida, mas concordo muito com sua análise. Não precisamos ir para o extremo positivo da exploração de um esporte (NFL), para perceber o desperdício de potencial do nosso campeonato. Olhe para o Liga Inglesa de futebol, que já sofreu com seríssimos problemas com torcedores e hoje é o melhor e mais rentável campeonato de futebol do mundo. Basta vontade e competência para conseguir essa virada. E que ninguém venha me dizer que os ingleses são mais competentes que nós. Realmente é triste. Eu , como amante do futebol, senti isso na pele quando tive a oportunidade de assistir a um Yankees x Red Sox no Yankee Stadium no mês passado durante uma viagem para NYC. Que Estádio, que tratamento aos torcedores, que espetáculo MARAVILHOSO. E nosso Brasileirinho, continua largado, mesmo com toda paixão do brasileiro pelo futebol. TRISTE!!!

  5. Acabei nem falando da NFL, que é hoje o campeonato que mais admiro no mundo. Como bem disse o Barretão, é certamente um exemplo a ser seguido. E a citada cobertura televisiva é apenas a ponta do Iceberg. Todo o campeonato é idealizado pensando no torcedor, no amante do esporte. As regras mudam todos os anos a fim de manter a competitividade, o interesse do público. É realmente o esporte levado a sério, pois os jogadores são punidos mesmo por atitudes fora do campo. Faltas comportamentais graves, que prejudiquem a imagem do time, não passam em branco. Resta a nós, amantes do esporte, admirar essa aula de organização, exploração e competição e torcer para algum dia termos algo parecido em terras brazucas.
    GO DALLAS!!!!!

  6. Fábio:

    Quando vc fala em pré-jogo da Rede Globo, dá até arrepios.
    Para a cobertura de qualquer esporte, incluindo o futebol, a grande TV do Brasil (só ela tem audiência de verdade) começa a sua transmissão do evento em cima da hora. Quando tudo vai começar. No futebol, por exemplo, para as transmissões à noite, a Globo tem entrado com os times já posicionados em campo. E aí é uma correria desenfreada. Ninguém tem espaço. O comentarista é até esquecido pelo narrador que, só chama a sua reportagem, depois de o jogo ter começado ou na iminência do seu início. Sobra a inveja de se morar num país desenvolvido com tantos recursos e á frente do nosso tempo… Até numa transmissão esportiva!!!! É o fim!.

  7. Texto perfeito.

    Dá vergonha comparar as transmissões americanas com as transmissões daqui.O q me deixa pior eh que nem na Copa do Mundo a bosta da Globo melhorou a qualidade das transmissões.O maior evento do Futebol e a Globo entrava encima do jogo,sem nada de especial.Fizeram o Central da Copa q era legalzinho,mas soh.D esporte msm não davam tanta importância.

    Ainda não perceberam aqui que o Futebol dava pra dar muito mais dinheiro que dá hje

  8. Oi,

    Os americanos vendem o esporte como um espetaculo, um show. No Brasil a nossa visão de esporte é bastante amadora, tanto do esporte em si, como as coisas que ele envolve, como por exemplo: Estadio, o torcedor, segurança, conforto, etc.

    A transmisão de TV é a mesma coisa. Para a Globo que esta pagando não importa colocar o jogo as 22 horas de uma quarta, o tanto que não atrapalhe a novela ou sua grade de programação, mesmo que o jogo fique com o estadio vazio. O mesmo ocorre com a cobertura do pré jogo ou do pós jogo. Afinal, querem ver o Faustão… Se a detentora dos direitos de transmissão não valoriza o seu produto, no qual ela paga muito caro por ele, fica muito dificil.

    Abraços

  9. Sei que não tem taaanto a ver com o assunto, mas preciso deixar minha opinião que a qualidade de imagem em HD dos jogos sediados em São Paulo transmitidos pela Globo deixou a câmeras 3D da Sony usadas na copa do mundo no chinelo.

    Eu sei que não tem a ver com câmeras, até pq as da copa são de fato infinitamente superiores, a começar pela fluídez da imagem e os efeitos de câmera lenta.
    Mas ao comparar a definição e nível de detalhes, a imagem da Globo (na transmissão aberta e não a transmissão a cabo – NET e Sky -) é cristalina e a da copa tinha uma leve compressão.

    Isso mostra que se bem utilizado, nosso sistema de transmissão digital deixa qualquer outro do mundo chupando o dedo.
    É só ter boa vontade….

    …como em tudo nesse país, onde falta boa vontade até para diagramar a porcaria de uma capa de DVD que já chega PRONTA dos EUA, é só traduzir.

  10. Acho a comparaçao, apesar dos muitos pontos apresentados, incabível, por um simples fato: a visao que o brasileiro tem sobre o futebol é diferente da visao que o americano tem do futebol deles.

    Brasileiro nao gosta de futebol, gosta do seu time. É a velha maxima: nao gosta do esporte, gosta de ver seu time ganhar, ta certo é até um pouco exagero, mas só um pouco.

    Maior prova disso é a presença de publico nos estádios. Por exemplo, acompanho o campeonato ingles, todo jogo com publico no estadio, quase saindo pelo ladrão, nao consigo acreditar que nao tenha uma audiencia alta na tv. Pra mim essa coisa de que o Brasil é o pais do futebol nao passa de mito.

    Se la na Inglaterra ou ainda na Alemanha ( maior media de publico de todos os campeonatos) a Tv nao faz uma cobertura a altura do interesse pelo evento, ai sim tem problema. Agora, se por aqui só existe maior mobilizaçao do espectador em tempos de Copa do Mundo e mesmo na Copa, toda a atençao é pela seleçao brasileira, nao vejo tao defasada assim a cobertura em razao do proprio interesse dos torcedores nas temporadas regulares e ai a cabe a tv fechada fazer essa cobertura mais ampla. Na verdade, acho até que tem melhorado essa cobertura. A Globo até mostrou os jogos da Copa em que o Brasil nao jogou, ao contrario do que vinha acontecendo.

    A nossa NFL só acontece de 4 em 4 anos e tem duraçao de apenas 1 mes. O Superbowl é ou nao é a final da Copa para os americanos ? Vejo muito mais semelhanças entre esses dois eventos do que o campeonato brasileiro. Meu ponto de vista é, com tanto interesse, é bem ruinzinha a cobertura do evento da Fifa.

  11. Fabio
    acho q não dá pra comparar a forma q transmissões são feitas.

    O futebol aqui tem td ano não da pra fica td jogo de quarta e domingo 1 hora antes da partida falando do jogo pq vai acabar se repetindo já q os progamas esportivos aqui só falam de futebol então seria mais do mesmo.

    A temporada do football ai começa em setembro e termina em janeiro então a coisa fica mais intensa durante a temporada e quando acaba tem a NBA, MLB e em uma proporção um pouco menor a NHL ainda no resto do ano pro americano curtir e aqui é só futebol q eu adoro mas não teria saco pra ficar 1 hora antes do jogo vendo reportagens q vão falar da mesma coisa q foi dita nos dias anteriores nas mesas redondas e afins.

    Falando da forma q os jogos são transmitidos acho q a globo não deve nada a nenhuma rede de TV do mundo basta ver os jogos da Champions league e pra mim é bem claro q a qualidade é a mesma e em algumas vezes até superior em numero de cameras, angulos dos lances e belas imagens. Só tenho q criticar é Galvão Bueno e sua eterna “chatisse” e alguns comentaristas q só falam merda!

  12. Fabio, moro na Florida e acompanho as transmissoes esportivas daqui. Concordo com a qualidade da cobertura das tvs abertas americanas para os jogos. Agora, comparar a TV brasileira com a americana e’ brincadeira.
    A programacao nos EUA e’ fraquissima. Eles sao obrigados a valorizar o esporte pq nao sobra mais nada para mostrar.
    Os canais abertos vivem de reality shows, programas de fofoca e programas de auditorio.
    Se a Globo fosse americana teria 90% da audiencia. Se o GNT fosse um canal da California colocaria HBO e Showtime no bolso.
    Vamos valorizar o que o Brasil tem de melhor.

    Proximo capitulo: comerciais de TV… ai e’ covardia…Brasil na cabeca, de novo.

    1. Fala Jose, tudo bem?

      A comparação foi estrita entre cobertura esportiva da Globo/Brasileirão e NBC/NFL. Quanto à TV aberta, não posso opiniar. Não assistia Globo quando morava no Brasil e não assisto TV aberta aqui, então, seria leviano comparar.

      Você diz que a Globo teria 90% de audiencia baseada no que? Novelas? Faustão? Reprise de Novelas? Fantástico? Isso não me parece melhor que nada do que tem aqui. Nunca gostei de TV aberta, não importa o país.

      Agora acho desproporcional comparar GNT com HBO e Showtime. O que a GNT produz – ignorando os americanos que eles compram – não chega aos pés do entrenimento original da HBO e do Showtime. Eles produzem séries, filmes e o Bill Maher sozinho destrói TODOS os talk shows da GNT juntos, infelizmente.

      Valoriza-se o que é de direito. A Globo é que não valoriza o fã do esporte.

      Abraço,
      Fábio

  13. Pessoal, gostei da qualidade dos comentarios do blog. Virei fa de vcs… de verdade. Parabens.

    Vou deixar de generalizar e comentar apenas as trnsmissoes esportivas.

    Posso ter exagerado na puxada de brasa, meu ponto de e’: as transmissoes americanas sao suportadas por um arsenal de tecnologia (efeitos especiais e cameras ate no gramado) mas sempre que a tecnologia fica em segundo plano eles se perdem.

    As entrevistas sao chatas e os apresentadores nao tem jogo de cintura. Tb sinto falta dos narradores parciais como os do Brasil.

    Pode ser tudo saudade da terrinha… vamos ver com o tempo.

    abraco

  14. a cobertura da NFL deve ser a que mais tem cobertura da TV aberta aí.
    já a MLB, que tem partida quase todo dia, tem cobertura maior dos canais esportivos locais a cabo, com jogos em rede nacional aos domingos (ESPN, com exclusividade), segundas (ESPN, transmitido simultaneamente com os canais locais) e quartas (ESPN, mesmo esquema das segundas). além disso, a FOX tem cobertura regional aos sábados
    já na pós-temporada, TBS e FOX transmitem em rede nacional os playoffs (uma fica com a Liga Ameriana e a outra, com a Nacional, com direitos revezados a cada ano), e a FOX transmite o All-Star Game e a World Series (finais).

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