//HCF { Halt and Catch Fire }

Uma das maiores conquistas de Mad Men foi permitir a viagem no tempo em frente à TV. Em vez de recriar passados longínquos ou futuros improváveis, a série de Matthew Weiner deu um passo curto para trás, dando viva a memórias de muitos avôs e avós e apresentando todos os erros, exageros e acertos daquela época ao mundo moderno. É a chamada “cautionary tale”, uma alerta, um lembrete sobre o preço cobrado pela evolução tanto de ideias quanto da sociedade. Acima de tudo, Mad Men capturou a alma daquele tempo. Das pessoas. Das necessidades. Dos sonhos. E pesadelos. Logo, com a fórmula de sucesso nas mãos, o AMC repetiu a dose, com o mesmo grau qualitativo e dramático, com Halt and Catch Fire, criada por Christopher Cantwell e Christopher C. Rogers. E a série é tão fantástica quanto viciante!

Graças à magia negra do Netflix, recebi a indicação da série na minha programação e resolvi espiar o episódio piloto para sentir o clima. Precisei parar depois de 15 minutos para fazer o jantar, mas sem deixar de pensar no conceito: uma companhia de médio porte tentando peitar a IBM no começo dos anos 80, quando a revolução do PC começou a ganhar fôlego e, claro, definir as bases para o instrumento profissional – e pessoal – mais importante das últimas décadas, o computador. Passei a noite pensando nisso e, no dia seguinte, voltei aos episódios. Assisti à primeira temporada quase toda num dia só. São 10 episódios, diversas tramas ao mesmo tempo realistas e relevantes, e centenas de decisões que, embora sejam incorporadas por empresas e pessoas fictícias, representam a alma daquele período. Não consegui parar de ver. Foi uma experiência fantástica.

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Mas quais as razões? Bem, talvez pelo tema principal: empreendedorismo. Ou melhor, sobre os obstáculos no caminho e o preço pago por acreditar tanto num sonho, ou num objetivo, que chega a doer e prejudicar tudo e todos ao seu redor. Pessoalmente, ando ponderando sobre tudo isso há um bom tempo, especialmente com o fim do jornalismo de entretenimento e a desvalorização absurda da minha melhor aptidão. Toda área passa por isso, invariavelmente. A única coisa que muda é a intensidade e o momento, mas essas revoluções são cíclicas e garantidas. Por conta disso, o paralelo do dilema que afeta a fictícia Cardiff Electric – que fabricava eletrônicos para automação de empresas e, por conta da chegada de um executivo para lá de obcecado e ganancioso, precisa entrar no ramo dos PCs – se faz presente, relevante e, bem, útil no mundo real; coisa que a maioria dos produtos do entretenimento não é. Essa utilidade vem da aplicabilidade. Halt and Catch Fire é uma lição de vida misturada com aula de empreendedorismo e retrato de uma geração atribulada, sem saber como lidar perante uma revolução, mas sem opção de retroceder. Dar o passo seguinte era a única maneira de evitar a destruição certa num ambiente corporativo ao mesmo tempo lucrativo e volátil. Bem, não mudou muito, não é?

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A série é ambientada em 1983/84 e o objetivo da trama é a criação do primeiro computador portátil, o Giant. Assim como nas start-ups e grandes ideias de hoje, tudo só aconteceu por conta do esforço descomunal de um programador, a genialidade de um engenheiro desgostoso e a ganância de um executivo cujo maior sonho é perseguir o sonho, não necessariamente transformá-lo em realidade. Ou seja, muita dedicação. Coisas grandes começam assim, mas basta o pensamento corporativo entrar na dança e tudo muda, trabalho duro deixa de ser a maior moeda, a politicagem começa a afetar tudo, exércitos de funcionários são envolvidos, interesses alheios entram na equação e a magia inicial vai por água abaixo.

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É por isso que Cameron Howe, a programadora rebelde, idealista e emotiva, é o coringa da equação. Ela é a paixão. Gordon Clark, o engenheiro frustrado, é a mente brilhante, a luta entre a lógica, a responsabilidade com a família e o sonho; é o meio do caminho. Já Joe MacMillan é o executivo bom de boca, mas sem ideias próprias ou habilidade para executá-las. Entretanto, é da mistura desses três indivíduos disfuncionais que surge algo novo e transformador. Mas a pergunta da primeira temporada é: eles conseguirão realizar algo antes que as próprias paranoias, medos e dúvidas coloque tudo em risco?

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E a tensão é extrema. A Cardiff Electric ganha vida, suas provações e tragédias são facilmente relacionáveis, afinal, elas aconteceram inúmeras vezes naquele período histórico, e a narrativa em si é validada. A IBM é pintada como vilã, mas, em pouco tempo, é a mentalidade da grande corporação que assume a autoria das maldades – pessoais e profissionais. A série faz de tudo para demonizar esse pensamento ao mesmo tempo em que mostra que sem ele, nada existiria. É um dilema interessante.

São revoluções ininterruptas. Tecnológicas e pessoais. O mundo parece mudar mais rápido do que as decisões dos personagens. Tudo está constantemente numa montanha-russa emocional, bem, quase tudo. Joe, em trabalho inspiradíssimo e intenso de Lee Pace (Pushing Daisies e O Hobbit), é constantemente misterioso, atormentado, problemático, em busca do impossível. Alguém capaz de gerar o caos e a dor alheia para benefício do próprio ego ou do pneu que está perseguindo. Pace beira o doentio com toda essa insanidade contida e a capacidade de explodir a qualquer momento que, mesmo depois de dez episódios, ainda surpreende. Você sabe que vai acontecer, só não sabe quando e como. O elenco em si é forte, com o casal Scoot McNairy e Kerry Bishé abrindo a porta da dinâmica familiar e repetindo a dose de Argo, onde também atuaram como marido e mulher. prodigyMackenzie Davis também brilha como Cameron, numa época em que ser mulher, querer mais que gerar filhos e cuidar da casa, e ter atitude não combinava muito bem. Menção honrosa para Toby Huss; o veterano de Carnivále e King of the Hill manda muito bem perto da energia dos novatos.

Assim como o texto de abertura da série menciona, Halt and Catch Fire é a promessa de caos. Na linguagem de programação, HCF colocava o computador num estado destrutivo e sem volta. Isso também acontece com a vida dos personagens e das empresas para quem trabalham. O caos gera destruição, a destruição abre caminho para novas criações que, invariavelmente, terminarão em mais caos e na continuidade do ciclo. É como se a maldição das mentes criativas seja nunca se contentar com nada, sempre querer transformar o mundo com cada gota de suor e, no fim das contas, chegar sempre no mesmo ponto, no qual é preciso parar… ou deixar tudo queimar.

O AMC já confirmou a segunda temporada de Halt and Catch Fire para 31 de maio. A série está disponível no Netflix norte-americano.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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