[Análise] Star Wars – Os Últimos Jedi

[Aviso: Não discutirei detalhes específicos da trama, mas, como para bom entendedor meia palavra basta, o texto abaixo PODE conter spoilers de Os Últimos Jedi e O Despertar da Força]

Em menos de cinco minutos de exibição de Star Wars – Episódio VIII: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi), o diretor Rian Johnson demonstra a principal razão pela qual recebeu a honra/desafio/abacaxi da criação da próxima trilogia do universo Star Wars (aquela independente dos Skywalkers): o roteiro de Johnson conversa facilmente com a geração atual, e com as próximas. A passagem do bastão começou com O Despertar da Força e engata a quinta marcha com o novo filme, mostrando – mais do que nunca – a necessidade do distanciamento do Universo Clássico, pois os vícios e familiaridades geradas pela estrutura de George Lucas não desaparecerão enquanto isso não acontecer.

Tudo em Os Últimos Jedi remete a transição. Ele é um filme do meio, o primeiro sem Han Solo, o primeiro sem Carrie Fisher o que, de certa forma, reforça o principal elemento narrativo plantado em O Despertar da Força: a galáxia, e os fãs, precisam de Luke Skywalker. A presença de Mark Hamill mistura saudosismo, felicidade e esperança enquanto, ao mesmo tempo, embala o começo de uma tristeza enorme, pois os dias dos heróis da minha geração estão contados. Mais uma razão para os dois remanescentes do Trio Parada Dura arrebentarem a boca do balão. O roteiro de Johnson foi instrumental para Carrie Fisher e Hamill brilharem e reafirmarem as razões pelas quais, mesmo sem virarem astros como Harrison Ford, cativaram milhares de fãs ao longo dos últimos 40 anos. Porradeiros, cabeças-dura e, bem, responsáveis pela queda do Império, Luke e Leia não tem nenhum momento apático, nenhuma ação desnecessária. Eles entram em cena, mostram serviço e voltam para o segundo plano – que, nesse caso, significa: a gente não para de pensar neles, querendo mais, muito mais – enquanto a nova geração cuida da correria, do desenvolvimento das narrativas secundárias e das viagens malucas pela galáxia. Ah, claro, e também pela maior parte do humor.

Humor? Em Star Wars? Bem, Os Últimos Jedi é o filme mais engraçado da Saga. Depois de tantos anos aprendendo e vivendo nesse Universo, devo dizer: como isso fez falta e eu não sabia. O escárnio de Han Solo e a senilidade de Yoda eram as únicas coisas próximas da comédia na Santa Trilogia. Poe Dameron trouxe um pouco disso à tona em O Despertar da Força, mas o novo filme é um desbunde. Como muita gente do cinema diz, “abra (evento/história) com uma piada”. O Main Theater do Walt Disney Studios, em Burbank, surtou com gargalhadas de todos os lados logo na abertura. Johnson foi magistral, corajoso e deixou o moleque sacana que existe dentro dele tomar conta da brincadeira. Mas não ficou só nisso, pois mais piadas surgiram, funcionaram e aliviaram uma trama mais catastrófica que a de O Império Contra-Ataca.

Nesse ponto, a opinião aqui é totalmente subjetiva. Na mão de outros diretores, esse filme poderia ser uma nova “ode à depressão e ao conformismo”, pois absolutamente tudo está dando errado. Sacrifício é o tema de Os Últimos Jedi e – novato ou veterano – nenhum personagem está isento, uma decisão interessante da história, que (isso você só vai entender depois que assistir; ou não) extingue aquela bolha de segurança enquanto a única coisa que mantém quase todo mundo vivo é uma espécie de bolha de segurança.

“Dar tudo errado” é uma das maiores razões pelas quais Star Wars precisa se distanciar do original de forma definitiva. As críticas mais merecidas a O Despertar da Força comparam o filme a Uma Nova Esperança; ao mesmo passo, Os Últimos Jedi é um Império Contra-Ataca com anabolizantes; e tudo leva a crer que o Episódio 9 seja outra versão de O Retorno de Jedi. Em outras palavras, vilões constroem superarma e os rebeldes explodem tudo nos segundos finais, depois os mocinhos fogem do contra-ataque dos vilões para, então, no terceiro filme, vencerem o Mal e reestabelecerem a esperança até a próxima ameaça surgir. Duvidar disso é ingenuidade, alias. Fica claro: essa estrutura não rende mais, pois sua reciclagem indiscriminada desmerece a importância da Saga e desperdiça chances de inovar. Nesse ponto, George Lucas merece um ponto positivo com a Trilogia das Guerras Clônicas – ele tentou fugir do próprio modelo. Falhou, mas tentou.

Mas esse é o macro. No aspecto micro, Os Últimos Jedi é um filme bem dirigido, recheado de faixas de John Williams encaixadas perfeitamente pelo trabalho de Bob Ducasay, editor que trabalhou com Johnson em Looper, e traz boas novidades no elenco, com destaque para a firmeza de Laura Dern (Jurassic Park) e a sinceridade de Kelly Marie Tran. O aumento da presença feminina tem sido claro desde o início da “Fase Disney” da Saga, especialmente na presença em cockpits, pontes de comando e etc. Alias, só falta uma diretora para a transição ficar completa. Adoraria ver Lexi Alexander no comando de um dos filmes solo, por exemplo.

Os momentos de emoção acontecem organicamente, sem forçar a barra. A Força ganha novos desdobramentos e reforça a conexão de alguns personagens, especialmente na criação do “whatsapp Jedi” – outra manifestação da atualização de linguagem e público, se é bom ou não, o tempo dirá. E as reviravoltas são muitas, algumas tentando quebrar expectativas óbvias, outras beirando o limite da aceitação.

As batalhas espaciais são as mais dramáticas já vistas nos filmes de Star Wars, pois Os Últimos Jedi é o filme mais “guerra nas estrelas” de todos. Poe Dameron consagragou-se como melhor piloto da Saga – digo isso com a tristeza por ser um fiel a Wedge Antilles, mas justiça seja feita – e Finn mantém o lado carismático, o “sujeito comum” enfiado no meio daquela doideira toda. Alias, o trabalho dessa trilogia em prol de Oscar Isaac é imenso. Ele parece atrair as melhores falas e ser catalizador nos melhores momentos. Felizmente, ele criou um personagem capaz de incorporar tudo isso e crescer.

Quem também cresce é Daisy Ridley, a nova esperança da coisa toda, afinal, o primeiro filme foi dela. Agora, ela divide espaço com o passado. Com Luke, com perguntas tanto da personagem quanto dos fãs. Rey precisa entender, nós também. As respostas chegam, embora não de forma definitiva, afinal, tudo depende de quem responde ou como a resposta chega. Até onde pode se confiar em almas atormentadas, mestres desacreditados ou meninas abandonadas no deserto?

Emoção

Nesse ponto, você pode se perguntar (e eu também): não está faltando emoção nesse texto? Sim, falta. E é proposital. Abrir o coração de forma irreversível soltaria muitos spoilers diretamente e poderia parecer exagero. Então, sem falar do filme, aí vão meus sentimentos: quase sempre me emociono com Star Wars, é inevitável (bem exceto em caso de “prequência”) e Os Últimos Jedi não foi diferente. Rever Mark Hamill foi demais, reencontrar Luke Skywalker, depois de tantos anos, teve um sabor especial, como receber a visita do melhor amigo da infância e notar que ainda temos muito em comum. Como não chorar vendo Carrie Fisher em toda sua magnanimidade real dentro da Home One, ao lado de Ackbar e cia, e de Billie Lourd, a filha dela, depois de perde-la na vida real? Foi uma sensação similar a ver a belíssima homenagem a Leonard Nimoy em Star Trek Beyond. E ela brilha por conta do roteiro, por, nem por um segundo, deixar de ser a Princesa Leia do meu coração. Ver a Millenium Falcon sem Han Solo é de partir o coração, tanto é que o vazio continua. Nem Rey é capaz de ocupar aquele lugar com tanta imponência. Sinceramente, ninguém será.

Os Últimos Jedi é um filme feito para manter o fã angustiado o tempo todo, independente de quantas piadas boas surgirem no meio do caminho. A esperança pode desaparecer a qualquer minuto, o sacrifício é extremo, e ameaças habitualmente circunstanciais (frotas inimigas, máquinas, comandantes descartáveis) ganham vulto e podem acabar com tudo. É como se a Resistência fosse o Rei Ricardo Coração de Leão à espera do cozinheiro francês com a flecha derradeira.

Nesse aspecto, saber que ainda falta um filme serviu de alívio, afinal, alguma coisa aconteceria e a melhor surpresa do filme surge aí. A solução é gloriosa, empolgante, irônica, engraçada, intensa e de fazer chorar. É como se todo o filme servisse para construir esse momento, como se tudo se resumisse àqueles 5 minutos (ou menos). Ser fã de Star Wars fez sentido, ensinou mais uma grande lição, e justificou muito da minha jornada até ali. Segurei firme nas mãos da minha esposa. Nós dois entendemos o recado e compartilhamos lágrimas pela nossa própria felicidade de assistirmos juntos, mais uma vez, o filme que provocou nossa união. Ele nos deu um futuro, lá atrás e, agora, de certo modo, repete a oferta.

É mais uma prova do legado, das razões pelas quais uma simples trilogia espacial manteve-se e continuará sendo parte da cultura mundial.

 

Mas não falta alguma coisa?

Se você percebeu, não mencionei dois nomes importantes nessa nova mitologia: Kylo Pitizento Ren e Líder Supremo Cara de Bolinho Que não Deu Certo Snoke. Pois bem, eles foram inúteis e inexpressivos em O Despertar da Força e, agora, redobram o senso de inutilidade. Outra razão pela qual Star Wars precisa se distanciar dos Skywalker. Nada, nem ninguém vai superar Darth Vader e o roteiro pontua isso claramente. Todo mundo sabe.

[ALERTA: ÚNICO SPOILER DIRETO A SEGUIR]
Porém, ninguém se esforçou para fazer algo realmente bom. Snoke é um vilão nível Darth Maul-Aproveitado. A única utilidade dele nesse filme é corrigir um dos erros mais grosseiros de O Despertar da Força: “tire essa máscara ridícula”, ele ordena a Kylo Ren, que acata a decisão e, claro, dá um piti. Dessa vez, podemos entender e ver a atuação de Adam Driver. Ele é bom, mas precisa correr atrás do prejuízo, pois o trio rebelde está anos-luz à frente dele em carisma, relevância e envolvimento com o público. Mas recebeu um núcleo problemático que envolve Rey e, em vez de avançar a história, ele aprofunda a relação e isso significa: velocidade lenta e risco de ficar sacal.
[FIM DO SPOILER DIRETO]

Snoke é apenas uma distração visual e narrativa, num trabalho tão apático do pessoal dos efeitos especiais que me surpreende Andy Serkis ter aceitado. Ceasar, de Planeta dos Macacos, é um monstro narrativo e brilhante na execução, Snoke é um acessório, uma piada tão ruim quanto o próprio nome.

Basicamente, e sendo o mais educado possível, exceto pelo núcleo imediato ao General Hux (Dowhall Gleeson abraçou a galhofa do personagem) NADA que acontece no “Lado Primeira Ordem da Força” tem a menor graça e/ou relevância. É uma sucessão de exageros na tentativa de manter Finn perseguido pelo passado. Ele não precisa. Desde que tirou a armadura de soldado, lá atrás, em Jakku, ele se libertou disso.

A prova disso é: retire o núcleo Kylo Ren e Snoke da história e 90% dela continua imutável. Retire Snoke da equação e NADA muda. Mas, como esperar bons vilões em meio a essa fase de inabilidade hollywoodiana de produzir novos vilões? E não é de hoje. Os Últimos Jedi só é mais uma vítima que se auto-sabotou ao insistir nas sombras deixadas por Darth Vader.

 

May the Force…

Os Últimos Jedi cumpre a função de filme de transição e aposta no sentimentalismo, porém seguiu bem uma regra de ouro de Hollywood: abra o filme com força e encerre com mais força ainda. E isso ele faz com notas máximas, o que – também por conta de dois momentos inesquecíveis –garante sua legitimidade dentro da Saga e faz dele um filme a ser revisitado, independente do nível de fragilidade dos vilões.

Dica: preste atenção na cena final. 😉

Nota pessoal: Os Últimos Jedi foi mais um filme que vi depois de adotar a postura de tolerância zero a spoilers. Não vi nenhum trailer, comercial, especulação ou fotos de divulgação. Vi o pôster de relance uma vez e só. Sim, é possível ver o filme pelo que ele é, não pelo que o marketing quer que esperemos dele. 😀

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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11 comentários sobre “[Análise] Star Wars – Os Últimos Jedi

  1. Gostei de boa parte da análise, mas discordo sobre os vilões, ou melhor, “o wannabe vilão, Kylo Ren, por que desconsidera o tema principal da trilogia. O J.J. sempre disse que O Despertar da Força não era apenas da Rey, mas do Kylo Ren também. O início da jornada do heroi para a Rei e o início da jornada de um vilão, para o Kylo. O Rian Johnson reafirma isso ao apontar que estamos vendo um vilão em formação. Ele, assim como o heroi, inicia seus passos cometendo muitos erros e colecionando derrotas. E ainda por cima tem a petulância característica dos Solo/Skywalker, se achando o bonzão quando ainda não é. Ele quer terminar o que Darth Vader começou, mas o que é isso? No Despertar da Força ele foi além do avô, matou o pai, quando Vader não conseguiu matar o filho. E agora em Os Ultimos jedi, bom, eu vi, vc também… é legal acompanhar alguém cheio de birra e fraquezas, que fez a escolha e está caminhando para conseguir seu objetivo final. Finalmente vemos um vilão em formação. Dá raiva ver os tropeços, é verdade, mas faz parte da jornada do heroi. Ou vilão, nesse caso. Que venha o episódio 9, e o J.J. vai ter que ralar para superar este aqui. Abraços.

  2. #SEM SPOILERS:
    Eu gostei muito de muitas coisas nesse filme, os conflitos (passados e atuais) do Luke, a virada na história do Kylo (embora não consiga gostar do personagem), o desenvolvimento do Poe e principalmente algumas cenas, alguns frames que remeteram aos filmes anteriores e ótimas lembranças (muitos dirão que é apenas fã-service, mas não achei que atrapalhou a história).
    Mas na média, não gostei do filme. Uma coisa que me incomodou imensamente foi exatamente a quantidade de piadas. Muitas delas, muito boas, mas colocadas em momentos inadequados. Diversas vezes quebrando uma cena tensa/emocionante.
    “Determinada ação que a Leia faz” também achei desmedida, se você entendeu o que quis dizer, provavelmente concorda comigo.

    Colocaria este filme melhor apenas que O retorno de Jedi (que pra mim é o pior filme da saga) – obviamente desconsiderando a trilogia maldita.

  3. Uma das melhores análises que li sobre o filme, sem dúvidas!
    Porém, não compartilho completamente da opinião sobre os vilões. Snoke, com seu ar de superioridade e ordens descabidas, realmente não faz falta. Como já dito, o filme se sustenta sem ele. A não ser que na sequencia seu papel seja exemplificado, e todos os “furos” preenchidos, tal qual Os últimos Jedi fez em alguns aspectos de O despertar da força.
    Em relação a Kylo Ren, acredito estarmos vendo a ascensão do personagem, o que justifica as dúvidas do vilão e toda a ira acumulada, reforçada também pelo ocorrido entre ele e Luke. Arrisco dizer que o fim do personagem é inesperado, ao menos para mim.
    Sobre a cena final, é muito bem construída. Abre a ideia em relação ao filme seguinte, como você disse, no estilo d’O retorno de Jedi, mas faz também uma homenagem singela à todos os fãs da saga, evocando memórias daqueles que assistiram ao filme na infância.

  4. Eu vou continuar batendo o pé. Me perdoem, mas o Luke que ele construiu é PARA MIN, incrível. Acho que Mark foi apegado ao Luke clássico, mas esse Luke é o resultado de tudo o que houve com todos os jedis. Ele errou igual a todos os jedis,temeu o lado sombrio igual a todos os jedis, se isolou igual a todos os outros , se redimiu com a força, porque entendeu que a Força não está somente em um grupo recluso,e virou uma lenda – Uma lenda que perdura em todas as histórias em várias galaxias que o figuram como o maior herói da galaxia, e o motivo pra pegar um republica despedaçada pela Nova ordem, e ao invés de fugirem ou serem escravos como o menino, lutarem. KARALHO. Parabéns pelo cast..

    ah so pra deixar bem claro. Não acho o filme nota 10, muito pelo contrario. Um nota 8,0 perfeito. Perde demais com o arco do Finn que realmente foi meio desnecessário

  5. Só vi o filme ontem, e portanto só li seu texto agora.

    SPOILER ALERT!!!

    Dá pra sentir nas entrelinhas sua decepção com alguns pontos deste filme. E eu concordo com elas. Haja suspensão de descrença. Haja furos de roteiro. Muita coisa sem explicação, muita coisa dificil de engolir. O casal Ray / Ren pode conversar bem com os Mileniuns, mas predestinação sem um mínimo de esforço me incomoda demais. O plot twist passou a ser mais improtante que o bom senso. As reviravoltas, mais importantes que as motivações dos personagens manterem se coerentes.
    Entendo que algumas desconstruções são necessárias, mas acho que exageraram a mão. O que fizeram com o Luke foi muito triste. As novas raças alienígenas são mero acessório. O politicamente correto está acabando até com a diversidade marca registrada da saga. Vou manter a esperança que o próximo filme responda as diversas questões em aberto deste.

    Sds

    PS1: se você está falando do aumento da representatividade das mulheres, inclusive em pontes de comando e cockpits, melhor deixar de usar o termo cockpit, pela sua etmologia, e passar a usar flight deck.

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