[Análise] A Visita: Surpresa até no Gênero

M. Night Shyamalan retorna ao thriller psicológico, escreve bem, mas, em A Visita, se rende ao estilo de Atividade Paranormal. Funcionou? Leia e descubra.

Entrei no cinema para ver A Visita (The Visit) com uma única informação: é o novo thriller de M. Night Shyamalan. Tenho uma boa relação com o trabalho dele e gosto da filmografia dele (podem julgar, eu nao ligo, mas adoro A Dama na Água, Corpo Fechado e amo A Vila) até ele pular do precipício em The Happening e aquele treco que, mais ou menos, quem sabe, bem de longe, se parece com Avatar. Dali para a frente, de fato, a coisa piorou, Devil ficou sem graça e Depois da Terra foi perda de tempo. Como, até agora, ele tem mais acertos do que erros, continuo torcendo por novos filmes bons dele. E foi com esse espírito que decidi ver A Visita. Foi um reencontro interessante com Shyamalan, mas, precisamos aceitar, ele mudou. E muito.

Andei conversando muito sobre formato superando conteúdo e A Visita me fez pensar ainda mais no assunto. A dica está no pôster do filme “Do Diretor de O Sexto Sentido e do Produtor de Atividade Paranormal”. O conceito da história é claramente de Shyamalan, com seus plot twists, boa construção de ambiente e uma história contada de maneira clara e bem amarrada. Isso em si já faz de A Visita um filme minimamente interessante. O porém surge na segunda parte dos créditos, pois “o Produtor de Atividade Paranormal” só sabe, bem, fazer Atividade Paranormal. E aí Shyamalan sujeitou uma boa história a um formato popular no qual o susto desproposital, ou “boo!” se preferir, vale mais que a história. Fosse A Visita um filme da franquia, seria o melhor de todos, pois há, de fato, um cineasta competente por trás. Já pensando na filmografia de Shyamalan, não agrega muito.

M.-Night-Shyamalan on set

O diretor também optou pela filmagem em primeira pessoa, com aquela câmera na mão simulada e com uma co-protagonista imersa no linguajar e nas piadas para cineastas, que soam muito mais críticas do que engraçadas. Muito da tensão do início da carreira de Shyamalan, seja em O Sexto Sentido ou até mesmo em A Vila, fluía melhor com a filmagem tradicional; os fantasmas de O Sexto Sentido agregavam e apavoravam sem pular na tela; a maldade do Sr. Vidro ganhava proporções gigantescas quando a revelação acontecia, assim como em A Vila. Dessa vez, a boa virada do roteiro, perde força por conta do excesso de tomadas características do gênero de terror found footage, que, como efeito colateral, gera dúvida exatamente em relação ao gênero: é terror? é sobrenatural? Essa tensão é muito bem vinda, pois Shyamalan amarra bem as pontas e permite qualquer desfecho, optando pelo mais improvável de todos. Logo, além da expectativa do plot twist, estamos diante de um filme com genre twist, afinal, não fazemos ideia do que se trata.

Essa ideia pode ser igualmente genial e catastrófica. Seria a evolução do estilo? Deixar o espectador no escuro até o último momento possível e aí virar a mesa. Por outro lado, pode afastar quem gosta de saber mais antes de assistir. No caso de A Visita, o gênero está nos conceitos agregados a seus criadores. Sabemos que é um thriller por ser de Shyamalan e que vai dar sustos por ter o nome Atividade Paranormal atrelado. Mas, quando a exibição começa, nada mais fica claro.

Foi uma exibição peculiar. Muita gente rindo de um filme feito para fazer o contrário. Mas muita gente berrando quando os sustos acontecem. Mesmo sendo previsíveis – sempre testo, fechando os olhos em alguns deles exatamente onde sei que vão acontecer e nunca falha! – as pessoas reagem. É a construção da tensão e o cumprimento da promessa: “Fique olhando, calma, só mais um segundo, olha, vai acontecer alguma coisa… boo! Pode gritar agora”. Não lembro de ninguém rindo nos grandes filmes de Shyamalan. A tensão era real, palpável, as pessoas queriam se surpreender. Talvez fosse a parcela de público que gosta de Atividade Paranormal e considera a franquia divertida? Talvez. Vi muita gente rindo no ótimo retorno de Jason Vorhees aos cinemas, então vale tudo. Agora, foi curioso associar isso a Shyamalan.

the-visit-movie-clip-nana-laughing-

Saí do cinema com uma sensação esquisita. Foi um pouco além de gostei ou não gostei. Pareceu um primeiro contato com um novo diretor, que parece ter abandonado os projetos autorais e abraçado as chances que o mercado lhe oferece. De modo algum acho que ele se vendeu, ele apenas se adaptou. Trabalhar é preciso e não há demérito nisso. Agora, conceitualmente falando, o Shyamalan de A Visita mostra que continua sabendo escrever, mas sofre com a ausência da fotografia primorosa, precisa e narrativa que sempre utilizou. Uma vez na câmera subjetiva não mão, sempre na câmera subjetiva na mão. A Visita acaba ficando tedioso por conta disso, mesmo com uma ótima atuação de Kathryn Hanh, que brilha na conclusão. E ela é o maior nome do elenco, que, exceto pela descoberta de uma versão mais nova de Dianne Krueger na jovem Olivia DeJong, não apresenta grandes destaques. E, aparentemente, nem mesmo Shyamalan faz uma de suas famosas participações especiais. Não está nos créditos e não o vi, então, se está lá, é bem escondido.

Resumindo bem, para quem gosta de thrillers sem sustinhos, os dois primeiros atos são fracos e o terceiro bate forte, mas será que compensa? Quem decide é você!

M. Night Shyamalan É um novo diretor que, por enquanto, me mostrou que pode escrever. Mas tem ficado muito à mercê de seus produtores: vide Depois da Terra e, agora, A Visita. Continuo torcendo por seu retorno à boa forma.

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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