Liberdade de Expressão ou Falta de Noção?

Liberdade de expressão ou falação sem noção? Quando é possível se expressar em todos os lugares da forma que bem entende, o respeito alheio, ou sua curiosidade, podem estar por um fio.

por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Gosto de ser surpreendido, e você? Penso assim quando vou ao cinema, quando assisto uma série ou até mesmo quando dedico algumas horas a um jogo de futebol. Quero aproveitar aquela “viagem” e curtir suas surpresinhas e, claro, a grande revelação do final. É com esse intuito que escritores, roteiristas, diretores, atores, jogadores e todos os profissionais do entretenimento se mobilizam para criar um produto, para que um consumidor feliz, e interessado no assunto em questão, resolva gastar um dinheirinho para ser entretido. Bem, foi assim que minha geração aprendeu. Quer boa cultura e diversão, pague por ela. As coisas não são bem assim e, especialmente por muitos metidos a espertinhos consumirem gratuitamente, fica muito mais fácil opinar a respeito só para “dizer que viu/leu” primeiro. É uma corrida relativamente inútil, mas com tanta futilidade por aí, é a menos pior (sic). A pessoa resolve escrever no Twitter, postar no Facebook, visitar fóruns, listas, liga para os amigos, manda SMS, manda pombo correio para a mãe e faz de tudo para compartilhar sua opinião. Não é fantástico? É o milagre da liberdade de expressão, a rave falastrona do consumidor moderno, o chamado fórum de idéias, no qual todos querem falar, mas poucos estão dispostos a ouvir.

Tem o lado bom: ainda se consome música, literatura e obras audiovisuais. Fato. Se pagam por isso, ou não, é outra discussão. Mas o ser virtual anda arrumando para sua própria cabeça e, de tabela, estragando o prazer alheio por se sentir livre e protegido pela tal liberdade de expressão para dizer o que quiser. Já vi gente brigando por alguém ter contado o final de O Senhor dos Anéis em listas e fóruns. Ok, estamos falando de um livro com mais de 40 anos de existência, cujo desfecho é um legado cultural e desconhecê-lo fica difícil, especialmente se a pessoa se dispõe a participar de uma comunidade composta por fãs da obra. O assunto vai aparecer mais cedo ou mais tarde, então, ler acaba se tornando condição sine qua non para a boa convivência num meio desse tipo. E perdi a conta das vezes em que presenciei pessoas brigando por alguém ter contado o fim de filme ou mesmo de episódios de séries, afinal, vale o dedo mais rápido no gatilho.. oops, download. No meu caso, vale o lugar onde a pessoa mora. A Costa Leste sempre assiste tudo com 3 horas de antecedência, então é perigoso ficar na internet quando se deseja garantir essas surpresinhas deliciosas que o entretenimento nos propõe.

Com esse pensamento, decidi há semanas que leria o livro Never Let Me Go, de Kazuo Ishiguro, cujo filme está em cartaz. Quero ler antes de assistir. Pura opção. Ele foi capa do Los Angeles Times, gerou discussão por ai – mas não muita, afinal, é nascido no Japão e criado na Inglaterra e, aparentemente, inteligente… e o internauta americano não é o sujeito mais brilhante da face da terra, convenhamos – fiquei longe de qualquer leitura relacionada à obra. Fiz isso em alguns casos com sucesso absoluto, como Avatar e A Origem, por exemplo. Só vi os trailers e encarei as obras sem pré-conceitos. Gosto disso, afinal, como disse, gosto de surpresas.

Mas, dessa vez, não será possível. Ontem de tarde, fui à Barnes&Nobles do shopping The Grove, em Beverly Hills, para comprar um livro infantil para Ariel e, por sorte, acabei dando de cara com um exemplar de Never Let Me Go, que não estava achando nas livrarias melhores e está com reservas até o final da Copa de 3028 na biblioteca do bairro [e ainda tem gente que reclama de adaptações; faz um bem danado ao livro]. Fiquei empolgado, ainda mais sabendo que não poderia esperar por mais 3 horas para participar de uma Noite de Autógrafos com Guillermo Del Toro, que está lançando The Fall. Enfim, uma pena, mas achei o livro.

E era uma versão em paperback, a famosa capa mole. Fui procurar pela hardcover, também conhecida como capa dura, e estava analisando outros títulos quando um ser maligno se aproximou.

Não era uma garota.

Era uma criatura anciã que aterrorizou as noites de H.P. Lovecraft.

Uma entidade que tirou o sono de Del Toro.

Algo saído do purgatório do Hellraiser.

Devia ter percebido e corrido dali, mas a fé nas pessoas foi minha ruína.

Ela chegou, falando com um sujeito que parecia extremamente entediado. Ela não parava de falar.
Tocava num livro, algo estalava em sua mente e começava a discorrer sobre o título, como um hiperlink vocalizado por um programa que usava a voz e a velocidade das personagens de Gilmore Girls.

Devia ter percebido. Mas não percebi.

Sabia o que aconteceria em seguida. Não havia tempo. Apenas esperei pelo golpe.

Que veio. Ah, e como veio.

Ela chegou. Aplicou seu Toque de Merdas a outra cópia de Never Let Me Go.

E Bang: “ah, esse livro é ótimo! Eles são [insira aqui twist da história] e fizeram um filme sobre…”
Confesso que tentei segurar o impulso, mas não deu, e interrompi, em português alienígena: “P$#$% que pariu!!!!”

O casal ficou sem ação.

Eu segurava minha cópia. E mostrei para a matraca, que já tinha contado o final de três clássicos, dois do Stephen King e tentado explicar algo do Gaiman, mas não conseguiu, antes de estragar meus planos. Ok, eu já suspeitava do twist, mas queria saber isso do modo como o autor deseja, não assim. A primeira vez tem que acontecer de maneira magnífica, não rapidinho no banco de trás do Fusca, pô!

Ela fez cara de quem não sabia o que estava acontecendo e aí precisei me comunicar na língua daquele ser desprezível: “Obrigado pelo Maldito Spoiler, senhorita!”. E apontei para o livro.

Nem toda a vergonha que ela sentiu foi capaz de aplacar minha indignação. Se falar tudo que seu cérebro pensa sem o menor controle já é algo que deveria ser uma abominação, e muita gente pratica esse esporte no Twitter e no Facebook diariamente, fazer isso dentro de uma livraria, ao lado de outras pessoas que estão ali para comprar livros deveria valer uma noite dentro de uma iron maiden. Imagino a cabeça do sujeito que estava com ela: “ok, já não vou comprar nada, por que ela me contou o final de todos os livros, e agora ainda estou passando vergonha”.

O sangue subiu e para não dar com a cópia na cabeça da cidadã, resolvi virar as costas e sair. Fui até o caixa pagar e pude ouvir enquanto ela continuava tentando convencer o sujeito a comprar alguma coisa, mas SEMPRE tentando cativá-lo pelo twist ou pelo final.

Ler é uma experiência complexa, longa e que precisa acontecer na medida certa. Esse tipo de informação reduz o impacto obviamente, mas não com todo mundo. Cada um reage de um jeito. Mas a escolha é pessoal e intransferível. Tagarelar num blog ou no Twitter já incomoda demais, em alguns casos, mas achar que isso também pode ser feito ao vivo e a cores é um erro absurdo. A vida não tem filtros; e quem fala demais, invariavelmente, vai falar bobagem. Não podemos confundir liberdade com falta de respeito.

Eu gosto de surpresas, e você?

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast "Gente Que Escreve" e dos cursos "Escreva Sua História" e "C.O.N.T.E. - Curso Online de Técnicas para Escritores".

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22 comentários sobre “Liberdade de Expressão ou Falta de Noção?

  1. Sem comentários para o ser na livraria… ¬¬’

    Eu também ODEIO spoilers, acho que todos (se não, a maioria aqui), vão concordar que é bem melhor acompanhar a história (filme, livro, seriado), com os mistérios propostos, as jogadas, as dicas…essa é a magia…

    Sei exatamente o que você sentiu, pois já passei o mesmo.

    Sou grande fã da série Harry Potter e na época do lançamento do Enigma do Príncipe (livro), me afastava de todo e qualquer spoiler, pois sabia da possibilidade da morte de um personagem importante, mas não sabia MAIS NADA.

    Foi então que eu conheci uma menina, amiga de um amigo.
    “Ah Bruno, ela também gosta de Harry Potter!”
    “Nossa Bruno, você gosta?! Eu-sou-louca-mas-estou-muito-puta-porque-fulano-vai-morrer!”
    “O QUÊ?!?!?!”
    “Ah! Você não sabia?! …”

    ¬¬ (…)

    Não deu nem tempo de avisar que eu NÃO SABIA E NEM QUERIA SABER!!!!

    Ou seja, estragou tudo. Quando eu li, foi emocionante, claro, mas não foi nem perto do que poderia ter sido, se eu não soubesse!

    Enfim…só de me lembrar eu já fico estressado! Huahsuhausuhaushuahshuahs… só passei para compartilhar o sentimento cara, você não está só!

    <o/

  2. Olá Fábio!

    Putz… isso me aconteceu no MSN.
    Na época em que o livro Harry Potter e a Ordem da Fênix foi lançado EM INGLÊS uma cidadã simplesmente escreveu TUDO de importante que aconteceria no NICK dela. Assim que ela entrou e a janelinha subiu no canto da tela ela tirou a graça de todo mundo que, como eu, ainda não tinha lido. E eu ainda ia esperar ansiosamente 6 meses pela tradução!!!

    Claro que isso gerou uma briga daquelas… Não aguentei e falei um monte pra garota!!! E, naturalmente, depois a bloqueei e deletei.

    Dá muita raiva quando acontece essas coisas.
    E olha, não é só gente sem noção não… já peguei revistas “especializadas” que ao invés de fazer uma matéria sobre a obra, fazem um resumão da história sem colocar um aviso de SPOILER no título ou na capa.
    Aliás, é por isso que esse aviso existe né… Será que vai cair o dedo se colocar o aviso na frente antes de escrever e/ou de postar?!

    Quando estou numa conversa… como nesse seu caso, eu pergunto antes pra pessoa: “posso contar o que acontece?”
    Mas já teve situações em que a pessoa me implorou pra contar e mesmo assim eu não disse, porque mesmo que a pessoa diga que não se importa, vai sentir menos prazer ao ler / assistir.

    Quanto a mim, para me proteger, evito tudo sobre a obra em questão até que possa ler / assistir, assim como você fez com Avatar e A Origem.

    Bjos…
    Cris

  3. Michael Caine me estragou não só a brincadeira sogro ou pai, mas essa semana a própria dubialidade essencial do final de Inception. Tem um universo de diferença entre vc juntar todas as peças e chegar a uma conclusão e vir alguém e canonizar dizendo “essa aqui é a verdade absoluta segundo o diretor”. Velho filhodaputa. :-/

    🙂

  4. Cara,

    Por um lado, meu instinto faria a mulher comer o livro. Por outro, meu lado racional diria que não adiantaria nada, pq esse tipo de gente está em número cada vez maior. E essa ao menos opera no varejo, a granel, na livraria, no corpo a corpo. E os imbecis que fazem isso em blog e sites?

    Agora, curioso como o spoiler se tornou industrializado. Como o roteiro dos filmes está cada vez mais fracos, já reparou como os próprios trailers muitas vezes cometem esse erro? Tiro no pé. Aliás, taí uma pauta pra vc: os trailers de hoje, que muitas vezes contam o final do filme ou esgotam todas as quatro piadas do filme.

  5. Talvez eu seja um anormal (ou nem tão TALVEZ assim), mas SPOILERS não me atormentam tanto assim. Talvez porque eu normalmente preste mais atenção naquilo que a menor parte das pessoas prestam: o miolo.
    Como assim? Miolo? É o seguinte: tanto em cinema como em literatura, a máxima é “comece cativando o leitor/espectador, jogue um conteúdo que amarre no meio, feche o conteúdo com aquele final ‘de ouro’. Ok, legal, mas eu sou o cara chato que se o produto (livro/filme) tem algo no miolo, me sinto comendo um “pão francês” sem miolo. A idéia é a mesma. Casca gostosa e crocante, sem recheio, não me alimenta.
    Talvez por isto, e apenas por isto, com ou sem spoiler, o que é bom continua sendo bom, o que é ruim continua sendo ruim…
    Não abono a “criatura malévola” da livraria, citada, mas ela não me incomodaria tanto assim.
    De qualquer forma, nas vezes que produzi algo que continha SPOILER, o aviso estava lá. Respeito é a chave. Sem ele… bom, todos sabemos!! (ou não, né!!)

  6. Putz eu era um perigo para spoilers. Falava e escrevia sem pensar.
    Hoje sei que isso devia chatear muita gente e lamento ter estragado algumas supresas mas também tem aquele pessoal que acha que livros que até já são de domínio público precisam ser mantidos em absoluto segredo.
    É muita paranóia para um mundo onde você abre o MSN e o cara coloca no nick o último parágrafo do livro do momento.
    Eu gosto de spoilers, adoro saber o que vai acontecer e isso não altera em nada minha empolgação mas, ultimamente, quando quero ter uma surpresa, eu me afasto do MSN, das listas e do Twitter até ler o livro ou assistir ao filme.
    E não culpo os incautos que soltam spoilers no calor da empolgação, eu já fiz isso e não tenho o direito de atirar pedras.

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