[Homenagem] Meu Pai

Ouvi as vozes exaltadas no topo da caixa d’água térrea no vão entre as duas torres do prédio antes de ver aquele monte de homens cheios de si batendo boca. Uma voz sensata tentava calar todas as outras; o fardo da liderança e da responsabilidade. Sem compreender a discussão, fiquei entediado com o nervosismo dos adultos e fui fazer outra coisa. Eu não vi quando o empurra-empurra começou, eu não vi quando ele foi jogado da plataforma e também não vi quando foi levado para o hospital, às pressas.

Só fui ao local da queda – de uns 2 metros de altura, até onde lembro – um pouco depois, para buscar as havaianas deixadas para trás no caos para retirá-lo de lá. Qualquer outra pessoa teria pensado se tratar de que alguém simplesmente havia desistido do par e seguido a pé para outro lugar.

Mas eu sabia, eram os chinelos do meu pai. E, naquele ponto, ninguém havia me contado que talvez nunca mais pudesse lhe encontrar. A voz sensata era dele, o síndico do prédio. Quem tentou apartar a briga entre dois moradores foi ele. Quem pagou o preço pela decência do meu pai fomos todos nós. Entretanto, ele ainda precisaria sobreviver.

E eu só percebi isso dias depois, quando pude ir ao hospital.
Lembro de pouca coisa daquela noite. O quarto era iluminado por uma luz vermelha agourenta e desanimadora. Era o melhor para ele. Luzes fortes, nem pensar. Entrei lá, vi meu pai inconsciente. Minha mãe falou com ele, ele respondeu. E, só então, eu senti medo. Ele perguntou quem eram as outras pessoas no quarto. Uma delas era eu.

Ele não lembrava de mim.

Meu mundo desabou momentaneamente. Mas, por ser criança, acreditei na desculpa dada e fui me preocupar com outra coisa. Mas, sabe-se lá quantos anos depois, esses três lampejos ainda queimam na minha memória. A briga, a queda, a luz vermelha. O esquecimento juntou tudo. Tudo isso foi embora, felizmente. Ele melhorou e a vida seguiu em frente.

Agora, por que contar algo pesado assim quando ele comemora 60 anos? Bem, seria fácil compartilhar alguma história feliz, parcialmente fictícia – afinal, memória de criança é cheia de buracos – só para mostrar como tudo é lindo, não é mesmo? Resolvi revisitar a lembrança mais forte e, de certo modo, mais importante da minha relação com meu pai. Eu ainda nem sabia bem o que era ser gente quando quase o perdi. Já havia perdido gente da família, sabia da dor, conhecia o desespero. Comecei a sentir tudo de novo, mas doía ainda mais.

Como seria viver sem ele?

Seria não ter um modelo de moral, trabalho duro e calma tão sólido que nem a estupidez alheia foi capaz de derrotar. Ele caiu, mas a queda acabou com a briga. Ele se levantou, e encontrei meu herói. Depois de tanto tempo nesse planeta, não encontrei nenhum exemplo tão inquestionável quanto meu pai. Ele não é perfeito, mas é raro achar alguém que nunca se mete em encrenca, odeia fofoca, respeita, ajuda e trata a esposa com todo o valor pelo qual tantos outros lutando há décadas para conquistar, e nunca reclamou de acordar de madrugada para pegar ônibus lotado – às vezes, seguindo pendurado para fora, na porta – e voltar só de madrugada depois de fazer infinitas horas extras. Essas são algumas das lições aprendidas sem perceber, pelo exemplo, pela ação.
Quando falho e reclamo por aí, sinto uma pontada de culpa absurda. Ele devia sofrer também, mas ficava na dele. Quando acordo tarde, ou deixo algo para amanhã, a frustração vem de não ser irredutível como ele. Ele não devia gostar, mas fazia mesmo assim. Quem me conhece sabe do meu bordão: “Se você desiste, o que isso diz sobre você?” Bem, isso só existe por causa do meu pai. O homem que nunca desiste, independente da derrota e da dificuldade. O homem capaz de vencer a morte e voltar do limbo habitado por apenas duas almas destinadas a passarem a eternidade juntas. Mesmo na hora mais sombria, ela estava lá com ele. E ele com ela. Isso já basta para provar que amor eterno existe além das barreiras conhecidas e desconhecidas.

Novamente, por que retratar dor quando o que todos queremos é alegria?Foi na dor da quase perda que descobri a importância de Aloisio, do Baiano, do Magrão, do Lulu. Curioso, meu pai nunca foi o “Barreto”, parece que essa ele deixou para mim. Então, se ele é o Aloisio, eu sou o Barreto, então, hoje, somos um. Independente das lágrimas desse momento, ou dos milhares de quilômetros que nos separam, seus 60 anos são uma dádiva para o mundo, pai.

E meu melhor presente, mesmo estando tão longe, é lembrar do quão importante sua vida foi, é e vai continuar sendo para o seu maior fã.

Obrigado por tudo, Feliz 60 anos e nunca deixe de sorrir. O mundo precisa disso!

Quem te ama, sabe!

Sobre 

Fábio M. Barreto roteirista e diretor de cinema e TV. Baseado em Los Angeles, nos Estados Unidos, atuou como criador de conteúdo multimídia, mentor literário e é escritor premiado e com vários bestsellers na Amazon.com.br. Criador do podcast “Gente Que Escreve” e dos cursos “Escreva Sua História” e “C.O.N.T.E. – Curso Online de Técnicas para Escritores”.

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